terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Entrevista a Fábio Coentrão - Ex Capitão da Equipa do Outeiro


Humberto Simões: Apresenta-te aos leitores do nosso blog, diz-nos o teu nome, data de nascimento e local.

Fábio Coentrão: Olá chamo-me Fábio “Coentrão” nasci em 26/06/1988 em Cascais.

Humberto Simões: Quando nasceu o teu gosto pelo futebol?

Fábio Coentrão: O meu gosto de futebol começou quando fui para a escola primária, o meu pai diz que queria que gostasse de futebol à força e que se fartava de me comprar bolas para eu jogar mas eu não ligava nada à bola, mas aos 6 anos tudo mudou quando entrei na escola primária do Cacém e conheci um miúdo que na altura jogava no Sporting e que tinha o talento incrível e gostei tanto de o ver jogar que lhe pedi para me treinar e assim foi. A partir daí a bola tem estado sempre comigo felizmente (risos).

Humberto Simões: Sendo que jogas futebol desde pequeno, que equipas representaste nos escalões de formação?

Fábio Coentrão: Nos escalões de formação tive o prazer de representar equipas como o Tires, Trajouce e Oeiras.

 Humberto Simões: Qual das equipas que mencionaste mais gostaste de representar?

Fábio Coentrão: Sem dúvida o Trajouce, no Tires por ser muito mais baixo que o resto dos jogadores não joguei assiduamente nos infantis nem nos juvenis até que decidi sair do Tires para jogar no Trajouce, equipa que na altura estava numa divisão abaixo da do Tires, mas isso não me fez pensar duas vezes, encontrei um excelente treinador que acreditou em mim, puxou por mim e me deu oportunidades de crescer enquanto jogador tanto a nível físico como a nível pessoal, mas infelizmente não durou muito esta aventura em Trajouce porque o treinador por motivos pessoais teve de abandonar a equipa e eu por respeito a ele abandonei também a equipa.

 Humberto Simões: Sei que entretanto estiveste na academia do Sporting, fizeste também um anúncio para a RTP a dar toques na bola, tudo te corria de feição, como lidas-te com isto?

Fábio Coentrão: Penso que qualquer jogador de futebol tem o sonho de puder pisar grandes relvados, grandes estádios, representar grandes equipas, e eu não sou diferente, vivi com grande felicidade esses momentos, que me deram muita confiança na altura e são momentos que irei guardar sempre na minha memória.

 Humberto Simões: Contudo nem tudo foram rosas e quando ainda eras júnior um problema de saúde grave impediu te de prosseguires a prática de futebol correcto?

Fábio Coentrão: Sim infelizmente sim, não gosto muito de falar sobre esse facto…porque foi um momento que marcou a minha vida pela negativa e virou de forma negativa tudo aquilo que tinha conquistado até à altura e que pela qual muito me esforcei…

Humberto Simões: Passou-te pela cabeça parar e desistir?

Fábio Coentrão: Tenho que admitir que sim e de facto acabei por desistir…penso que o facto de ser ainda muito jovem e com pouca experiência de vida não soube lidar bem com a situação, facto que ainda tornou pior o problema que já tinha, pois invés de parar para pensar, raciocinar e prosseguir o meu caminho da melhor forma, limitei-me estupidamente a baixar os braços e a desistir tendo ganho muito peso, perdendo a forma o que me levou a estar quase 3 anos sem jogar futebol regularmente jogando apenas a espaços, passando por várias equipas sem nunca singrar pela minha fraca atitude de violência e revolta.

Humberto Simões: Arrependes-te de ter agido assim? Se pudesses voltar atrás farias o mesmo?

Fábio Coentrão: Sem dúvida que me arrependo, errei em inúmeros aspectos, quando me dei conta do meu problema de saúde, fiquei desorientado e perdi-me…limitei-me a desistir, afastar os amigos que tinha na altura, tendo apenas atitudes condenáveis tanto dentro como fora do campo, era sem dúvida um revoltado, como dizia um treinador que tive…eu era como um bomba que explodia a qualquer toque. Se fosse hoje faria tudo de forma diferente não teria chegado tão baixo como cheguei, não teria desistido, teria levantado a cabeça e tentaria vencer esse problema com dignidade.


Humberto Simões: Mas grande parte da tua “revolta” deve-se ao deste “problema” ter-te forçado a abandonar o futebol certo?

Fábio Coentrão: Sim sem sombra de dúvida, penso que estava numa das melhores fases da minha vida, sentia-me bem, confiante e subitamente ter de fazer aquilo que mais gosto, para mim foi um grande choque para o qual não estava preparado.


Humberto Simões: Sem dúvida que foi um choque para ti ter de deixar de fazer aquilo que mais gostas certo?

Fábio Coentrão: Sim no seguimento do que tenho vindo a dizer, isto foi como se me tivessem tirado o chão debaixo do pés e eu estivesse a cair sem parar…estive sem puder fazer qualquer tipo de exercício durante 3 anos e fui muito abaixo fisicamente chegando a um nível que para mim é já deplorável tanto fisicamente como psicologicamente.


Humberto Simões: Que fizeste para inverter essa situação e vencer esse obstáculo?

Fábio Coentrão: Há uma altura que te olhas ao espelho e vês realmente como estás e no que te tornas-te…esse momento para mim foi marcante na minha mudança de atitude…ver como era e ver naquilo que me tinha tornado fez me cair na realidade e fez-me pensar que invés de ter pena de mim próprio o que eu deveria fazer era tentar alterar o rumo dos acontecimentos e fazer os possíveis e impossíveis para mudar. A primeira coisa que fiz foi primeiro fazer todos os exames e mais alguns para me certificar que o meu problema de saúde era passado e finalmente curado e assim fiz, realizei todos os exames que poderiam ser feitos e finalmente o resultado foi positivo tendo recuperado e sendo possível para mim retomar a actividade física.
O seguinte passo, e para mim o mais difícil seria recuperar a confiança e força psicológica para puder perder peso, regressar ao futebol e recuperar a minha forma física, e assim fiz, decidi regressar ao ginásio, treinando duas vezes por dia sozinho e tendo ainda a possibilidade de treinar com o Mister Medeiros no campo cedido pelo Talaíde para que eu pudesse treinar sozinho apenas com o Mister Medeiros a quem desde já quero deixar os meus agradecimentos por toda a ajuda que me deu durante estes momentos e pela paciência que teve em treinar-me sozinho rejeitando convites para orientar equipas para me puder ajudar.  Com isto e após muito esforço 6 meses mais tarde já tinha perdido 30kg e começava a ficar pronto para lentamente começar a voltar a jogar, como equipas boas do distrito de Lisboa dificilmente aceitariam um jogador com a minha condição procurei voltar a jogar em equipas “teoricamente” mais fracas como o Sintra Football, equipa da 2ºDivisão Distrital de Lisboa, e mais tarde tive o prazer de jogar na equipa das Neves de Beja onde encontrei dois grandes treinadores, o Mister Baião e o Mister Gameiro aos quais desde já quero deixar os meus agradecimentos por tudo o que fizeram por mim e por me terem permitido jogar nesse grupo fantástico que tínhamos nas Neves, onde as condições eram mínimas mas a boa vontade, o grupo e a união eram fantásticos, espero um dia puder reencontrar esse grupo e desejo as felicidades ao Mister Baião que agora está sem clube, ao Mister Gameiro que está nos escalões de formação do D.Beja e aos jogadores como Luis e Filipe Pascoa, Celso, Baganha, Didi, João Ramos, Luis “Ordinário” Baião, Cristiano, Nélson Rato, Carlos Palma, César Santos por todo vosso apoio e amizade.


Humberto Simões: Como te sentis-te quando te viste livre desse “problema”?

Fábio Coentrão: Senti-me como se tivesse vencido a Liga dos Campeões (risos) ver que depois tanto tempo perdido, tantas tristezas, batalhas ter chegado conseguido voltar ao meu peso normal, recuperar a minha forma e puder voltar a jogar regularmente deu-me um prazer enorme e fez me sentir um vencedor ainda que não tivesse conquistado nenhum bem material…

Humberto Simões: Que equipas representaste entretanto?

Fábio Coentrão: Ora bem durante esta fase de paragem e recuperação tive o prazer de representar equipas como o Talaíde, Montargilense, Sintra Football, Neves, tive ainda o prazer de treinar no União de Montemor e por último representar a equipa de São Bartolomeu do Outeiro.

 Humberto Simões: Qual destas equipas de teu mais gosto representar?

Fábio Coentrão: Houve duas equipas que apesar de todas as contrariedades gostei que foram o GDC Neves que me marcou pela união e pelo grupo fantástico de pessoas e a equipa do São Bartolomeu do Outeiro onde tanto tempo depois vivi momentos que fazem lembrar as melhores fases da minha vida enquanto jogador.

Humberto Simões: Entretanto como surge este convite para jogar no Outeiro?

Fábio Coentrão: Este convite surge através do Mister Medeiros, que entretanto tinha abandonado o Montemor e tinha recebido o convite por parte da direcção do Outeiro para assumir o cargo de treinador principal e trazer consigo jogadores de Lisboa para ajudar a atingir os objectivos propostos que seria fazer melhor que nos campeonatos anteriores, assim sendo fui convidado pelo Mister Medeiros, convite esse que aceitei prontamente de forma a puder ajudar uma pessoa que já tanto me tinha ajudado.

 
Humberto Simões: Como foi essa experiência?

Fábio Coentrão: Para mim apesar de ter tido os seus maus momentos, como o péssimo inicio de campeonato, as criticas de algumas pessoas da terra, a minha lesão no tornozelo, foi um experiência bastante positiva que repetiria sem pensar duas vezes, pois puder voltar a jogar, ser um dos capitães de equipa, regressar aos golos, estar em jogos em que se ouviram cânticos das bancadas de incentivo à nossa equipa foi de facto muito recompensante e fez valer a pena todo o esforço que foi feito.


Humberto Simões: Sei que foste severamente criticado por alguns adeptos e ex jogadores locais, qual é a tua opinião sobre isso?

Fábio Coentrão: Sim de facto fui infelizmente muito por minha culpa que durante o jogo Outeiro-Brotense houve um livre em que eu ia marcar e algumas pessoas da bancada começaram a ofender-me e a pedir para eu deixar que o livre fosse marcado por um jogador da terra, mas não me deixando influenciar pela bancada, bati o livre e não sei se por felicidade ou infelicidade acabei por fazer golo, golo este que dediquei de forma provocatória…às mesmas pessoas que tinham acabado de me criticar. Este acontecimento despoletou um ataque pessoal por parte dos críticos que não se cansaram de me criticar no blog e em eventos do clube.


Humberto Simões: Então deduzo das tuas palavras que fazes um “mea-culpa” certo? Se pudesses farias algo de forma diferente?

Fábio Coentrão: Sim sem dúvida, se fosse hoje marcaria o livre e caso fizesse golo simplesmente festejaria e iria ignorar as ofensas da bancada pois as pessoas apesar de puderem estar erradas são livres de pensar o que quiserem… mas naquele momento foi algo que me caiu mal…talvez por tanto eu como os meus colegas estarmos a fazer um esforço grande para ali estar sem receber 1 cêntimo e ainda por cima ser criticado por pessoas que tinha considerado minhas amigas e colegas…foi algo que de facto me custou e me fez reagir mal… se fosse hoje agiria de forma diferente e iria simplesmente ignorar e seguir o meu caminho…

Humberto Simões: Consideras-te uma pessoa humilde?

Fábio Coentrão: Pode parecer arrogância mas sim de facto considero-me uma pessoa humilde e humana que comete erros como qualquer outra.

Humberto Simões: Como te sentiste quando foste nomeado capitão de equipa e regressares aos golos rubricando 12 golos no campeonato tantos anos e sobressaltos depois?
Fábio Coentrão: Para mim foi um feito fantástico, como já referi nas questões anteriores, apesar das derrotas e desavenças, puder usar a braçadeira de capitão desta equipa e regressar aos golos e recuperar a confiança e alegria de jogar foi de facto muito recompensante e fez-me acreditar de que pudemos sempre mudar o rumo dos acontecimentos por mais mal que estejam.

 Humberto Simões: Achas que mereces-te usar a braçadeira?

Fábio Coentrão: Pergunta complicada essa… (risos) depende do ponto de vista sabes, sei que há pessoas que apoiaram essa decisão e sei que há outras que foram completamente contra essa decisão. Penso que o mister me nomeou capitão pelo facto de querer ter um ponto de união entre os jogadores de Lisboa e os jogadores da Terra. Penso que quem está de fora poderá julgar melhor o facto de que se eu mereci usar a braçadeira ou não, mas no meu ver tive atitudes em que não mereci usar a braçadeira mas também tive outras em que fiz por merecer usa-la, quem esteve no clube sabe do que estou a falar, apesar de ter muitos defeitos, lesionado, doente sempre pus imensa vontade nos treinos e nos jogos.


Humberto Simões: Qual é a retrospectiva que fazes da tua passagem pelo Outeiro e como classificas à época que tu e a equipa fizeram?

Fábio Coentrão: Penso que a equipa do Outeiro apesar de ter começado mal o campeonato e ter feito alguns resultados bastantes maus durante a 1ºvolta, fez uma segunda volta muito bem conseguida onde realizamos grandes jogos, e não tenho duvida que se a equipa se tivesse mantido para a época transacta que seríamos sérios candidatos ao titulo de campeão da 1ºDivisão Distrital de Évora.


Humberto Simões: De todos estes altos e baixos qual o momento que mais te marcou?

Fábio Coentrão: Recordo dois jogos que fizemos, um contra o Santana do Campo em que estávamos a perder por 2-0 ao intervalo mas fizemos uma segunda parte fantástica com 1 golo do grande Ferro e dois golos meus viramos o resultado para 3-2 jogo em que acabamos por empatar 3-3, mas me marcou pela qualidade do futebol que praticamos durante a segunda parte. Contudo o melhor momento da época para mim é a deslocação a Arraiolos, que tinha e tem um grande equipa, jogo no qual vencemos por 4-0 e que no meu ver foi a melhor exibição da época e que apenas veio demonstrar o que poderíamos e deveríamos ter feito caso as coisas nos tivessem corrido de feição.


Humberto Simões: Qual o momento que vives-te no futebol que recordas com mais saudade?

Fábio Coentrão: Talvez a vitória por 4-0 no terreno do Arraiolos, por ser o ponto mais positivo tanto tempo e tristezas depois, fizemos um jogo fantástico e a nível pessoa senti me muito bem…foi o culminar de uma bonita etapa repleta de peripécias e que apesar de tudo guardo com grande saudade e que gostaria de repetir.


Humberto Simões: Quais são os teus objectivos pessoais de momento?

Fábio Coentrão: O meu objectivo principal de momento é continuar a minha recuperação e chegar o mais longe que conseguir e se deus quiser irei conseguir viver momentos que valham a pena ser recordados…


Humberto Simões: Como o objectivo do blog é divulgar talentos perdidos nas distritais, queres mencionar algum jogador que achas que mereça destaque?

Fábio Coentrão: Boa pergunta como já joguei em bastantes equipas tive o prazer de jogar com grandes jogadores, como o caso de Djaló, Filipe, Carlos, Natalicio (todos ex-talaide), Fábio Marques (ex Atl Madrid B), Julian (Ex Montemor) Agnaldo, Gui, Farinha, Letras, Sezões, Toy, Ferro (Todos Ex Outeiro) Luis Pascoa (Ex Neves) Djá, Wilson, Rui Gato, Nuno Curto (Ferreirense), Zé Feio e Zé Manel (Vasco da Gama).


Humberto Simões: Quero agradecer o facto de teres aceite o meu convite para responder a este entrevista e verás que mais tarde ou mais cedo a tua sorte irá mudar e quem sabe possas chegar onde queres, eu espero que sim!

Fábio Coentrão: Eu é que agradeço o convite, foi um prazer, quero deixar uma palavra de agradecimento a ti e espero que o blog continue em funcionamento por muito tempo, boa sorte e um grande abraço.



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