segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A história de Ana Fragoso

Na minha primeira pessoa e em discurso direto. A alentejana contou a sua história de vida ao portal Físicos 21.
Nasci dia 4 de Abril de 1989 em Estremoz, cidade onde moro até hoje.
Uma menina tímida e insegura.
Recordo que o meu maior medo em criança era um dia crescer e ter que enfrentar o mundo sozinha, não ter quem me levasse pela mão ou quem resolvesse as coisas por mim.
Quando entrei para a escola foi muito difícil. Não estava habituada a ficar sozinha sem os meus pais, nem a contactar com tanta gente desconhecida. A única forma que o meu pai encontrou para me convencer a ficar foi ele próprio ficar dentro do carro à porta da escola para eu poder ir espreitar a todo o momento e ver que não estava sozinha.
Com o decurso do tempo fui-me habituando a esta «fobia», fui fazendo amigos, cresci, mas a minha personalidade ainda se mantém.
Penso que inconscientemente foi devido a esta minha personalidade, ou a esta limitação numa determinada área que me fez desenvolver um outro lado.
Aos 13 anos fiz um mini-curso de moda, sonhava em ser modelo, como muitas meninas nesta idade. Sempre tive algum jeito para fotografar e desfilar, participei em alguns concursos de misses e ganhei todos. Foi também nesta altura que entrei para o ginásio, comecei por fazer aulas de grupo e pouco tempo depois já estava a fazer demonstrações e a ajudar o instrutor. Quem me conhecia pessoalmente e me via num palco, quer fosse em desfiles de moda quer fosse em demonstrações de fitness, certamente diria que não seria a mesma pessoa. Tudo o que se tratava de expressão física para mim era e é muito mais fácil.
Nesta altura era demasiado magra e queria ganhar algumas formas. Os meus desportos eram as aulas de grupo e a natação, mas achava que não era suficiente. Foi então que comecei também a fazer musculação. O meu corpo começou a mudar e eu fiquei encantada com aquilo que conseguia fazer com ele. Comecei a traçar os meus objetivos e a fazer de tudo para os alcançar e isto preenchia-me. A musculação passou a ser o meu único desporto e a minha maior paixão.
Na escola secundária era boa aluna, apesar de praticar desporto não era muito boa a educação física porque odiava desportos coletivos, preferia ficar a correr a aula toda à volta da pista do que jogar futebol meia hora. Adorava matemática, ciências e história. Nos testes nunca tive problemas, mas no que se tratava de apresentações ou participações orais era um problema. Na maioria das vezes, soprava a resposta ao colega do lado, mas a minha boca permanecia fechada.
No final das aulas todas as minhas amigas iam para o café e eu ia para o ginásio, de onde só saia para jantar. Por vezes tinha discussões com os meus pais por passar tanto tempo no ginásio, achavam que eu devia viver mais para os estudos e menos para o ginásio, o típico. Cheguei mesmo a ficar de castigo sem poder ir, o fim do mundo para mim! Não aguentei e ia treinar às escondidas. Felizmente durou pouco porque era sem dúvida o pior castigo que me podiam dar.
No final da escola secundária devo ter sito a única aluna que não foi á viagem de finalistas, só de pensar que ia ficar uma semana sem treinar, causava-me inúmero stress, para além do facto que nunca gostei de sair à noite nem das confusões que ocasionalmente acarretam.
No entretanto fui igualmente realizando trabalhos no mundo da moda incluindo algumas revistas masculinas. Entrei nas 10 finalistas da FHM e pousei para a Playboy em 2010. Este último trabalho levou a muitas críticas por parte de algumas pessoas. Vivo numa cidade pequena onde todos se conhecem e alguns têm sempre algo a apontar, sobretudo quando se trata da vida dos outros! Durante muito tempo não se falou em outra coisa e a revista esgotou em todo o Alentejo. Não me arrependo de o ter feito porque não vejo as coisas com maldade, foi um trabalho artístico como qualquer outro e deu-me algum impulso para trabalhos posteriores.
Conclui o meu curso de instrutora de fitness na Manz e licenciei-me em  Psicologia do Desporto e Exercício na Escola Superior de desporto de Rio Maior.
Durante os 3 anos da minha Licenciatura só conseguia treinar aos fins de semana quando voltava a casa (sexta, sábado e domingo) pois não tinha possibilidades de frequentar um ginásio em Rio Maior. Também neste caso e, mais uma vez devido à minha timidez, não me iria sentir bem a treinar num ginásio que não era o meu. Durante a semana fazia corrida e alguns exercícios em casa. Sempre que tinha férias só vivia para os meus treinos, queria aproveitá-los cada dia. Algumas vezes nem sequer ia de férias até à praia só para não interromper os treinos.
No final do último ano do curso passei por momentos difíceis para os quais não estava preparada. Tinha um namoro desde adolescente que terminou e a primeira vez que se passa por uma situação assim custa sempre mais. Foi difícil terminar o curso e foi a única época em fiquei sem treinar e perdi imenso peso. Falo disto porque foi precisamente nesta altura que tive conhecimento do Bikini Fitness. E posso dizer que este desporto me ajudou muito e me ensinou muita coisa, inclusive mudou a minha maneira de ser. Agarrei-me a ele com toda a minha força e eu venci mesmo antes de receber qualquer taça.
Hoje faço do meu desporto a minha proteção, sei que nada me vai fazer mal nem fazer-me sofrer enquanto ele estiver comigo. Como eu costumo dizer, é um amor leal, que nunca me vai mentir nem desapontar. Esta é uma das razões porque me dedico tanto a ele e lhe dou tanta importância.
Comecei então a preparar-me para a primeira competição de Bikini na Taça de Portugal em Novembro de 2011. Não sabia bem em que consistia uma competição deste nível nem mesmo se estaria à altura. Tive que mudar completamente os meus padrões de corpo para me adaptar à categoria, sempre treinei para ter grande volume nas pernas e glúteos, os meus ídolos eram e são a Gracyanne Barbosa e Juju Salimeni. Para competir tive que perder parte das minhas formas mas valeu a pena, pois venci.
Fiquei muito feliz com a vitória. Não posso dizer que foi a recompensa por todo o meu esforço porque não considero que tenha sido um esforço mas sim uma terapia. Algo que me fazia sentir imensa vontade de me levantar da cama de manhã e começar a trabalhar para um objetivo.
Voltei a vencer o campeonato Nacional em Maio de 2012 e daí para a frente todas as provas que participei em Portugal. Todas me deram um sabor diferente e existia sempre aquela dúvida até ao final se o meu nome seria o último a ser mencionado ou não!
O ano passado tive a oportunidade de competir no Arnold Classic Europe 2012, a minha primeira prova internacional e consegui um 8º lugar que me motivou imenso para continuara a trabalhar cada vez mais.
Este ano a primeira temporada não me correu bem, os padrões do Bikini internacional são muito diferentes de Portugal, as atletas que ganham são meninas demasiado magras e com pouco trabalho muscular. Eu não me inseria neste grupo por isso não fiquei bem classificado nem no Europeu nem no Mundial. Eu previa que isto se iria passar, mas não queria destruir o meu trabalho de anos. No entanto, depois do meu 21º lugar no mundial de Kiev tive de tomar uma decisão e perdi 8 kg de massa muscular no pouco tempo que tinha até ao Arnold Classic (3 semanas).
Passei dias muito difíceis. Quem me vê no palco não imagina por tudo o que passei para estar ali com um sorriso naquele dia. A dieta foi demasiado restrita, fez-me sentir fraca, sem forças, sem vontade de nada. Houve dias em que isso me provocou alguma depressão e algum choro. Mas o objetivo falava mais alto e valeu a pena cada sacrifício.
Fui finalista no Arnold Classic (6º lugar) e uma semana mais tarde no Olympia Amador também (5º lugar). Infelizmente, mais uma vez, devido à minha falta de confiança, não fiquei melhor classificada. Em Praga houve muita discussão a volta do meu nome, eu própria via os juízes lá em baixo, a seguir ao palco, a discutir e a apontar para mim. Mais tarde um deles acabou por vir ter comigo a dizer que eu não fiquei no top 3 porque não me apresentara bem no desfile, fizera-o muito rápido e com demasiadas poses. Isto aconteceu porque nunca tinha treinado esta parte da minha apresentação. Correu de improviso, porque nunca me passou pela cabeça que fosse necessário. Afinal apenas as 6 finalistas necessitam realizar este desfile individual e eu não achei que pudesse aí estar incluída.
Subir a um palco tranquiliza-me, nunca fiquei nervosa antes de uma competição, sinto-me no meu mundo, onde realmente posso ser eu própria.
Posso dizer que o bikini fitness só me trouxe coisas boas, sou uma pessoa melhor a todos os níveis, sou mais segura, mais confiante, mais forte, mais social, abriu-me muitas portas, conheci muitas pessoas, tenho a possibilidade de ajudar os outros a alcançarem também os seus objetivos.
Fico muito feliz quando recebo o carinho dos meus fãs e de servir de inspiração para alguém, pois eu também tenho várias pessoas que me inspiram.
Quero continuar a competir e a progredir, é isto que eu gosto de fazer e me faz feliz.

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