Tão apropriado que seria trazermos aqui hoje um conto de Natal, ficcionando estórias, criando personagens, moldando argumentos ao sabor do tempo e da liberdade narrativa.
Texto e foto Firmino Paixão
Melhor ainda se os intérpretes fossem figuras reais e o argumento uma sucessão de factos, efetivamente, testemunhados. Um retrato feito de afetos e flashes de reconhecimento de uma família de província, dispersa por terras onde vão deixando sementes para o futuro e de onde atenuam a saudade com acenos pontuais, excessivamente espaçados no tempo. Seria um pouco assim…
Era uma vez um homem e uma mulher nascidos no século passado nesta terra alentejana. A Prudenciana e o Joaquim conheceram-se e uniram os destinos, construíram o percurso de vida que a época lhes permitiu. Gente de cara levantada, gente de trabalho e de muito sacrifício, porque os filhos foram nascendo com uma cadência quase aritmética, e foram meia dúzia. Índice de natalidade costumeiro na época, que exigia uma tremenda labuta na procura do sustento. E todos se criaram. Nasceu primeiro Joaquim, depois Honório, a seguir veio Fátima, mais tarde Rui, chegou a vez de João e, finalmente, de Vítor, por esta ordem e num intervalo de 14 anos. A mãe tinha o apelido Graça e o pai Madeira, pelo que, se mais nada em comum lhes coubesse, todos eles ganhariam os nomes Graça Madeira. Mas houve mais em comum, a predestinação para o futebol, pelo menos dos cinco rapazes, recreando-se nas peladinhas do Terreirinho das Peças, ali parede meias com a moradia térrea da rua 1.º de Dezembro, onde a família sempre residiu.
E assim nasceu o clã futebolista dos “Madeiras”, outros existem na cidade e da mesma época. Todos eles exímios praticantes, revelando invulgar competência para o jogo da bola. O percurso de cada um deles teve embrião nos clubes da cidade, à época o Despertar e o Desportivo de Beja, antes de se dispersarem por paragens tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão semelhantes, porque não raras vezes se juntaram aos pares com a mesma camisola. Os mais audazes, os que não hesitaram em “perder o castelo de vista”, tiveram carreiras com maior visibilidade, porque, no futebol, a sorte procura-se e o destino não está só na biqueira da bota, contam muito as escolhas e as decisões.
Rui foi o único que privilegiou o Despertar para iniciar a carreira, todos os irmãos tiveram como primeira camisola a do Desportivo de Beja. Os compromissos militares também interferiram, aqui e além, nos seus percursos desportivos, levando-os mesmo a representar clubes das antigas colónias portuguesas em África.
Os registos biográficos que aqui se elencam são um tanto aleatórios e, por esse facto, passíveis de uma ou outra omissão, mas começando pelo mais velho, Joaquim Madeira, 71 anos, começou a jogar à bola no Desportivo de Beja, de onde saiu para o Caldas e daí para o Ferroviário do Entroncamento, juntando-se mais tarde ao irmão “Nói” no Textáfrica de Vila Pery. Prolongou a ligação ao desporto através da arbitragem, como assistente dos internacionais bejenses Rosa Santos e Veiga Trigo. Honório Madeira, 69 anos, saiu do Beja para jogar no Textáfrica, representando também o Vasco da Gama de Sines. Passados 14 anos voltou a África para treinar o clube e conquistar o título de campeão de Moçambique, mas treinou também o Vasco da Gama, União de Santiago, Desportivo, Despertar e Sporting de Cuba. Rui Madeira, 65 anos, vestiu a camisola do “rasga” e saltou para o Belenenses, antes de ingressar no Salgueiros. Quando “Nói” se sentou no banco dos sineenses, Rui correspondeu ao apelo do irmão e regressou para jogar no Vasco da Gama, no União de Santiago e no Grandolense. João Madeira, 63 anos, jogou no Desportivo, Despertar e Desportivo de Tete (Moçambique). Resta Vítor Madeira, o mais novo, 57 anos, o que teve maior sucesso no futebol, com percurso entre o Desportivo de Beja, Vasco da Gama de Sines, Vitória de Setúbal, Estoril, Marítimo, antes de novo regresso ao Vitória e ao Vasco da Gama. Hoje é o único ligado ao futebol, treina as camadas de formação do Vasco da Gama (onde tem um neto). Um clã bem-sucedido no futebol. Deixam raízes? Aí não, que não deixam. Márcio Madeira, filho mais novo de Vítor, joga no Moreirense. O mais velho, Vítor como o pai, chegou a vestir a camisola do Benfica, mas já pendurou as botas. Bruno e Rui, filho e neto de Honório, representam agora o Desportivo de Beja.
A história podia terminar com a afirmação de que todos foram excelentes embaixadores da cidade de Beja no futebol nacional. Seria um final feliz. Mas como um dia disse Mandela: “toda a gente volta ao sítio onde nasceu”, e os irmãos Madeira (os cinco desportistas e a irmã) reuniram-se em Beja, numa romagem de saudade à campa da mãe, Prudenciana da Graça, no dia do centenário do seu nascimento.
Fonte: http://da.ambaal.pt/
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