quinta-feira, 9 de junho de 2016

O judo acima de tudo


O Judo Clube de Beja foi o primeiro clube ligado a esta modalidade fundado em Portugal e, reza a sua história, um dos três emblemas que estiveram na génese da Federação Portuguesa de Judo.

Texto e foto Firmino Paixão

Pioneiros também na estreita relação com o mestre  Kiyoshi Ko-bayashi, considerado o “pai do judo” no nosso país, os fundadores do Judo Clube de Beja souberam preservar a identidade do clube e dinamizar a modalidade até aos dias de hoje, antevéspera de mais um aniversário que aqui assinalamos. Francisco Gaitinha foi atleta, dirigente e atualmente é “árbitro de elite” na modalidade. Lidera o clube há 30 anos, com dedicação e discrição, não fosse o judo “um caminho de suavidade” e a “maneira mais fácil” de atingir os fins, conforme o definiu Jigoro Kano, o seu criador. Em tempo de aniversário, o histórico dirigente deixa aqui um bom diagnóstico do clube.

Como está o Judo Clube de Beja?
O clube está bem, temos cerca de 120 atletas nos escalões de formação, mais os seniores e temos campeões de katas (veteranos), ainda recentemente os nossos judocas Vítor Costa e Veríssimo Segurado se sagraram campeões ibéricos. Os miúdos vão evoluindo, procuramos formar bons atletas mas, sobretudo, boas pessoas, pessoas com muito caráter e muita personalidade. Temos uma boa dinâmica. Com boas instalações, climatizadas, com sauna e sala de musculação. Temos tudo o que é preciso para um atleta ser campeão. E temos bastantes associados, entre eles, muitos antigos atletas que estão fora de Beja, seguiram os seus percursos profissionais em várias partes do País, mas mantêm esse vínculo ao clube.

A formação é uma prioridade? Que competências ganham os jovens?

Sempre apostámos na formação. A aprendizagem do judo ao nível dessas idades passa por não querermos que eles sejam muito agressivos. Os treinadores terão de ter essa mentalidade, essencialmente, interiorizarem que terão de ser amigos uns dos outros. Vão aprendendo as técnicas mas é essencial que se sintam bem com eles próprios. Temos muitos atletas que têm um elevado aproveitamento escolar. E sabe que os médicos recomendam o judo a miúdos que sofrerem de asma?

Também formam campeões? 
E fiquei muito feliz quando soube que o André Alves estava apurado para os Jogos Olímpicos. É um judoca que passou pelo clube e que está filiado na Associação de Beja. Tornou-se no primeiro atleta olímpico que aqui formámos, mas temos muitos campeões nacionais que passaram por Beja, depois vão estudar para Lisboa e perdemo-los, mas temos muito orgulho em que todos eles tenham sido nossos atletas.

Recentemente foi criada uma secção de judo nos bombeiros de Beja. Foi uma cisão ou a criação de uma alternativa ao Judo Clube de Beja?
O João Trincalhetas decidiu sair do Judo Clube de Beja e formar essa secção. Felicito-o por isso, é mais um judoca criado neste clube, levou alguns atletas consigo e julgo que está a trabalhar bem. O mais importante é que continuem a praticar judo, isso é que é essencial, seja no Judo Clube de Beja, seja noutro clube, nem que seja na porta a seguir à nossa. Por outro lado, ele foi buscar miúdos às instituições de apoio a crianças, está a fazer um bom trabalho nessa área, essas crianças passam a ter possibilidade de praticar a modalidade e sem custos, o que é sempre positivo.

O Judo Clube de Beja ficou fragilizado com essas saídas?

Não! Saíram alguns atletas, ficaram muitos mais connosco e o clube não para. Agora, eu estou com 60 anos, estava a apostar no João para meu seguidor no Judo Clube de Beja, mas isso não foi possível, continuamos amigos, damo-nos muito bem, os atletas, alguns que saíram com ele, têm uma boa relação comigo, gosto dos miúdos como gosto dos meus filhos e o mais importante, repito, é que eles façam judo e reconheçam sempre que foram atletas deste clube.
Pretendem adquirir o edifício onde funciona a sede e o dojo, mas as dificuldades são maiores que os apoios…
É um processo que está em curso, procuramos que o imóvel seja considerado de “interesse municipal”, seria bom, enquanto o clube não consegue adquirir o estatuto de “utilidade pública” que é, agora, um dos nossos objetivos mais imediatos, para que nos possamos candidatar a alguns programas que nos ajudem a obter apoios financeiros. Temos o apoio do município, mas nem sempre é suficiente. Não temos transportes próprios, ou pedimos emprestado, ou vamos em carros próprios. As dificuldades são sempre muitas.

Trinta anos na presidência do clube é quase meia vida?
Vim para o judo em 1969, fiz o meu percurso como atleta, depois como dirigente e como árbitro. Fui o “Árbitro do ano” e estou na categoria de “Elite”. Há cerca de 30 anos que assumi a presidência do clube, mas isto tem tudo a ver com o “bichinho” que temos cá dentro. Esta é a minha segunda casa, já pensei na sucessão mas, como já referi, a solução não resultou, vamos esperar que apareça outra pessoa.

Fonte:  http://da.ambaal.pt

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