José Saúde
Hilton, o “minino”
Atravessou o Atlântico com uma mala cheia de sonhos. Oriundo da cidade de João Pessoa, Estado de Paraíba, no Brasil, transportava no seu currículo o dom de bem jogar futebol. A sonhada Europa apresentava-se como uma luz ao fundo do túnel. Todavia, a sua fantasia de criança tornar-se-ia numa indubitável realidade. Redigimos esta crónica sobre Hilton Targino da Silva, nascido a 23 de Setembro de 1948 e que aportou em Lisboa a 25 de fevereiro de 1973. A sua chegada a solo português foi atribulada, visto que o seu destino era Portimão, só que a individualidade que o recebeu no aeroporto disse-lhe que o rumo era Faro. O “minino” protestou, sentiu-se enganado, mas ao chegar à capital algarvia lá estava o presidente do Portimonense que o recebeu com pompa e circunstância. Para trás ficava o seu ingresso, com 17 anos, na União de Itabaiani. Mas cedo Hilton despertou cobiças que o conduziu a uma experiência no Botafogo de Paraíba, um clube que disputava o Campeonato da I Divisão e que de pronto o contratou como profissional. Num jogo contra o Santa Cruz de Recife, um empresário reparou no rapaz e de imediato lhe lançou uma proposta para jogar em Portugal, indicando-lhe o Portimonense. O jovem, que havia jogado descalço nas ruas, aceitou o desafio, sendo que o contrato fora de 60 contos de “luvas”, 10 contos mensais e mil escudos para o Botafogo. Portimão foi uma cidade que muito o aclamou. O povo acarinhava-o efusivamente e ele agradecia. Cinco épocas ao serviço do emblema algarvio e a subida da agremiação ao escalão máximo do futebol luso. Hilton, com o seu exímio malabarismo e as jogadas estonteantes, deixava os adeptos em êxtase. Por esta altura, e com uma conta bancária quiçá recheada, viajou de férias à sua terra natal, João Pessoa, e comprou uma casa para a sua mãe e uma outra para a sua irmã. O “eldorado” português dava-lhe um outro estatuto financeiro. Na temporada de 1978/79 transitou para o Lusitano de Évora, que disputava o Campeonato Nacional da II Divisão, seguindo-se o Olhanense (duas épocas), Desportivo de Beja (cinco, iniciadas em 1981/82 e com os bejenses no escalão secundário nacional), Moura (três), Sobral da Adiça, Ervidel e Mina da Juliana. Mas, nesta fase final da carreira tudo se havia esgotado. O cofre da “fortuna” encontrava-se vazio e lá vinha o recurso às amáveis e oportunas dádivas. Com as botas arrumadas, eis o Hilton como contínuo da Escola Mário Beirão, em Beja. Por outro lado, o “minino” deslumbrava-se com os feitos futebolísticos do seu filho Tiago Targino, um miúdo que transitou do Desportivo para o Vitória de Guimarães, onde se afirmou como internacional nos escalões jovens de Portugal, sendo que como sénior ainda se falou numa possível contratação da promessa vimaranense pelo Benfica, mas tudo se esfumou. Hoje, Hilton, o “minino”, que treinou todas as camadas de formação do Desportivo, encontra-se aposentado e vive de recordações, tal como muitos outros craques cujo processo de vida foi o regresso às amarras do antro das carências.
Fonte: Facebook de Jose Saude
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