segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ENTREVISTA COM JOÃO SERRANO, SELECCIONADOR DA AFE



João Serrano, responsável pelas selecções jovens de futsal do nosso distrito, fala-nos sobre o seu percurso desportivo e de como vê o presente e o futuro da modalidade no nosso distrito.

Fica o agradecimento ao Mister João Serrano pela disponibilidade demonstrada.




- João, fala-nos um pouco sobre o teu percurso desportivo enquanto jogador e treinador.
 JS - Posso falar, claramente, em duas etapas de formação desportiva:
-A primeira, que corresponde verdadeiramente à minha iniciação teve lugar desde muito pequeno, nas muitas e muitas horas de longos dias de Verão e noites de Inverno em que, na minha rua, com os meus amigos e, especialmente, com os meus irmãos (mais velhos) joguei o futebol de rua, sem grandes formalismos, com balizas improvisadas, sem árbitros, 1*1, 2*2, 3*3,… em função da disponibilidade de cada momento, com grandes discussões e, especialmente, com um espírito competitivo e desportivo muito elevado.
-A segunda marca a minha iniciação desportiva formal, a qual começou oficialmente (como federado) quando tinha 12 anos. Iniciei a prática do futebol no Juventude Sport Clube no escalão de iniciados, a convite de um grande senhor do futebol, que estava, pelo menos, 20 anos adiantado em relação a quase todas as outras pessoas do distrito que andavam na modalidade, o Sr. Domingos Vale. Com ele, para além de compreender o fenómeno desportivo, as etapas da formação desportiva, a metodologia do treino, percebi que seria possível o compromisso da minha paixão (futebol) com o meu dever como cidadão (a minha formação escolar e social). Nesta modalidade apenas representei este clube (entre os 12 e os 17 anos nos escalões de formação; dos 18 aos 30 anos como sénior semi-profissional, uma vez que continuei sempre a estudar).
Depois de 6 anos completamente desligado da prática desportiva, fui convidado para assumir a responsabilidade técnica do Futsal sénior masculino da Casa do Benfica de Évora, a qual acumulava com a de jogador. Esta equipa acabava de descer da 3ª divisão, após uma época muito fraca (último lugar, sem qualquer vitória!!!) e os atletas saíram praticamente todos (apenas ficaram 2). Comecei um projecto de raiz, onde inclui o meu colega e amigo Paulo Palma que, desde essa altura me acompanhou sempre na equipa técnica. Este projecto incluiu também jogadores da cidade que nunca tinham jogado Futsal. Durou 3 anos e valeu-nos dois campeonatos distritais, duas taças distritais e uma participação no campeonato nacional da 3ª divisão onde fizemos 41 pontos! No final do terceiro ano no clube, quando tínhamos tudo preparado para consolidar a equipa nos campeonatos nacionais a direcção resolveu desistir de participar! Depois deste episódio pensei não continuar a carreira de técnico no Futsal, absolutamente amador no distrito, especialmente a nível dos quadros directivos!
No ano seguinte, já a meio da época, fomos convidados para assumir a responsabilidade do Futsal em Montemor (GDM), onde estive cerca de 2 épocas. Vencemos um campeonato e uma taça do distrito. Na 2ª época participámos no campeonato nacional da 3ª divisão. Em Dezembro, estávamos a meio da classificação, com uma equipa completamente amadora, e o presidente do clube (uma personagem sombria…) sentiu que não tinha tanta influência no balneário como os treinadores e, depois de criar mau estar entre os atletas da terra (Montemor) e os atletas que vinham de Évora, resolveu demitir-nos. A equipa de Montemor, foi reforçada, depois da nossa saída com 3 ou 4 jogadores semi-profissionais da zona de Lisboa, atletas da 2ª divisão nacional e foi contratado um treinador profissional. A equipa acabou por fazer apenas 5 pontos na 2ª volta e desceu de divisão! Essa equipa já fechou as portas, tal era o montante de dívidas que o presidente (aquela figurinha que entretanto “fugiu” para Angola) contraiu!
Depois de um ano de completo afastamento com o treinador (embora já tivesse realizado o curso de treinador de nível I em Portel e o curso de nível II em Lisboa), em 2008 fomos convidados pelo Prof. Óscar Tojo para assumir a responsabilidade das selecções distritais da A.F. Évora de Futsal (masculino e feminino) e das selecções femininas de futebol de 7. É neste projecto que nos encontramos actualmente.
 
 - Como surgiu a paixão pelo Futsal, visto que fizeste grande parte do teu percurso desportivo no Futebol?
Sinceramente, o Futsal foi consequência de uma grande desilusão com o Futebol na cidade. Quando saí do Juventude, ia fazer 30 anos, era o capitão de equipa há vários anos e tinha um estatuto importante dentro da equipa. No entanto, um senhor que hoje (18 anos depois) ainda é presidente do clube (!!!) achou que eu “incomodava” e, numa panelinha com o treinador da altura (um tal Minervino Pietra que agora é treinador adjunto do Jorge Jesus no Benfica!) conseguiram criar um ambiente que me levou a abandonar aquele clube para sempre! Na altura eu já era professor na universidade e, portanto, aproveitei para me dedicar ainda mais à minha carreira académica.
A paixão pelo Futsal, podemos dizer, resultou na proximidade entre as modalidades e também porque durante o meu tempo de estudante na universidade e, posteriormente como professor, sempre participei nos torneios universitários, pelo que, na verdade, sempre fui praticante das duas modalidades.
 - De que forma tens observado a evolução do Futsal no nosso distrito ao longo dos últimos anos?
Não tenho dúvidas de que o Futsal no distrito evoluiu muito, especialmente nos últimos 5 anos. Por um lado, podemos dizer que este é um fenómeno não apenas distrital, mas nacional, ou mesmo internacional. O interesse pelo Futsal cresce a cada dia que passa e a participação de jovens jogadores de ambos os géneros no Desporto Escolar retrata isso mesmo. No entanto, há uma pessoa e uma instituição que têm sido, efectivamente, as alavancas dinamizadoras da modalidade no distrito: o Prof. Óscar Tojo e a Associação de Futebol de Évora (AFE). Este colega e amigo é uma pessoa extremamente dinâmica, competente e com visão estratégica. Para além dos aspectos organizativos, ele e a AFE conseguiram neste período de 5 anos duplicar o número de equipas seniores masculinas e femininas a praticar a modalidade, conseguiram também criar uma estrutura técnica da AFE que garante a formação dos quadros técnicos, directivos, dos árbitros e do pessoal de apoio na área da medicina desportiva que conferem hoje aos agentes desportivos da região maiores competências.
No entanto, o Futsal vai, nos próximos anos e em todo o país, sofrer o impacto da “crise económica internacional”! Já se começa a perceber que as autarquias cada vez podem apoiar menos, ao que se associa a impossibilidade das empresas se envolverem no fenómeno desportivo, uma vez que não têm margem de manobra para o fazer. O resultado é já patente em equipas de nível nacional que, de um dia para o outro, passam de profissionais a inexistentes!!! No nosso distrito ainda não se nota muito porque a estrutura é totalmente amadora, mas os custos existem e o cenário cria-me alguma apreensão quanto ao futuro!
 - Devia a AFE "obrigar" as equipas a terem treinadores com formação à frente das equipas, como já acontece no futebol?
Em relação a essa questão posso dizer que tenho dupla opinião. Por um lado e uma vez que somos tão poucos os que se encontram envolvidos na modalidade no distrito, todos os que quiserem vir, se vierem com humildade e com vontade de fazerem bem, de aprenderem e de darem o seu melhor em prol da modalidade, em prol da formação integral dos nossos jovens, serão sempre bem vindos. Por outro lado, entendo que só com formação adequada dos nossos agentes desportivos (neste caso treinadores, mas não só) poderemos perspectivar um ambiente de aprendizagem que conduza à formação integral dos atletas (formação de talentos, mas também formação de seres humanos perfeitamente integrados na sociedade). Está hoje provado, contudo, que ter treinadores com formação adequada não significa ter treinadores com nível de curso de treinador elevado. Estes cursos deixam, actualmente, muito a desejar, são francamente teóricos, descontextualizados da realidade prática do exercício da actividade (eminentemente em contexto de sala de aula!). A literatura demonstra que, mais importante do que estes cursos é a aprendizagem ao longo da vida, a experiência em contextos ricos de aprendizagem, a prática supervisionada por treinadores mais experientes, entre outros. Por isso, actualmente o Instituto do Desporto de Portugal abraçou a enorme e inevitável tarefa de estabelecer novos referenciais de formação que devem constituir a base nos próximos cursos de formação de treinadores das diferentes modalidades. Quando toda esta lufada de ar fresco chegar à prática, acredito que os treinadores que sairão dos cursos de treinadores serão mais competentes e, nessa altura, será fundamental a exigência da formação para o exercício da actividade. 
 - Em tua opinião, o que é que a AFE poderia melhorar para fazer crescer ainda mais e de forma positiva o Futsal na nossa região?
Tenho tido algumas trocas de opiniões com o Prof. Óscar Tojo sobre este assunto. Penso que há algumas medidas que seriam fundamentais para impulsionar, de vez, a modalidade na região. Não penso, no entanto que, efectivamente, dependam todas da da AFE!
A realidade que conheço melhor no distrito é a da cidade de Évora. Nesta, por exemplo, dei durante 6 anos formação em Futsal na Escola Salesiana de Évora, nas etapas de iniciação (6-10 anos) e orientação (11-14 anos). As turmas de Futsal são sempre muito procuradas pelos miúdos nestas idades, pelo que chegámos a ter mais de 100 crianças a participar nos treinos de formação. No entanto, esta escola não tinha, na altura, indicações para federar equipas e eu nunca mostrei muito interesse em fazê-lo (explico adiante porquê), pelo que estes miúdos treinavam Futsal e jogavam Futebol nos diversos clubes da cidade. Aqui está a questão principal, o Futebol tem hoje um impacto tremendo nas expectativas dos jovens, pelo que estes tendem a praticar esta modalidade, embora admitam gostarem muito de Futsal. No entanto, em Portugal o Futsal está, estruturalmente, englobado na Federação Portuguesa de Futebol, pelo que um miúdo não pode estar federado em Futebol no clube “A” e em Futsal no clube “B”, no entanto se for Basquetebol, Andebol, Atletismo, Natação, etc. já pode! O ideal seria permitir que os miúdos praticassem durante as fases iniciais de desenvolvimento desportivo (iniciação e orientação) as diferentes modalidades (incluindo o Futsal e o Futebol) em simultâneo, para, quando tivessem que decidir sobre qual a modalidade em que se queriam especializar (15-18 anos), pudessem fazê-lo sem comprometer o seu potencial de desenvolvimento. O que acontece no distrito, ainda, é que os jogadores que chegam ao Futsal são aqueles que não tiveram sucesso no Futebol, ou que já não sentem capacidade para praticar aquela modalidade, chegando tarde e mal preparados para a modalidade! Assim, não há desenvolvimento possível!
Parece-me que neste momento, no nosso distrito (e a AFE) deve procurar divulgar a modalidade e trazer mais e mais praticantes, deve fazê-lo em estreita colaboração com o Desporto Escolar” (não esqueçamos que esta é a modalidade mais praticada neste contexto) e deve dirigir-se de uma forma muito especial às meninas. É especialmente no sector feminino que prevejo um maior desenvolvimento do Futsal no distrito, uma vez que não há outras ofertas de qualidade de outras modalidades e não há a competição directa do Futebol.
Também me parece que a AFE poderia e deveria permitir aos clubes filiados a inscrição de equipas de Futsal de escalões de formação sem custos ou com custos muito reduzidos para os clubes.
 - O nosso distrito ainda não tem um clube que possa vir a ser uma referência na modalidade, de que forma deviam os clubes trabalhar para atingir um patamar mais elevado?
Essa é uma questão estrutural. Évora é um município do interior, com as virtudes, mas também com as desvantagens inerentes. Podemos verificar que, o próprio Futebol, que tem o impacto mediático que todos reconhecemos não tem clube nenhum de referência na cidade (já lá vão mais de 50 anos que o Lusitano deixou a 1ª divisão; neste momento já nem tem equipa sénior; já lá vão mais de 20 anos desde que o juventude deixou de ter equipas a discutir os lugares de acesso à 1ª divisão nacional; agora anda entre a 2ª e a 3ª divisão, que corresponde na prática, ao 3º e 4º escalões nacionais!).
Os nossos miúdos, seja no Futebol, seja no Futsal ou noutra qualquer modalidade, só podem desenvolver plenamente as suas competências desportivas se contactarem com os melhores, com as melhores equipas, para procurarem constantemente a auto-superação, e poderão fazê-lo mais facilmente também se observarem os melhores a jogar, nos escalões à sua frente, nos escalões mais elevados da formação ou nos seniores. No nosso distrito os escalões de atletas mais velhos praticam uma modalidade “híbrida” entre o Futebol e o Futsal, num ritmo competitivo pouco entusiasmante e nada aliciante.
Utopicamente seria possível perspectivar um projecto de intervenção com vista a atingir esse objectivo que refere no Futsal, no entanto, com a conjuntura económica e social actual, não me parece que pudesse passar à prática!
Há muitos casos de sucesso desportivo rápido em Portugal, concretamente no Futsal. Estou-me a lembrar de equipas como o Alpendurada, equipa que durante 4-5 anos andou no campeonato da 1ª divisão, quando representa uma localidade com muito menos habitantes que Évora. Conheço este exemplo porque disputei pela CBÉvora uma eliminatória da taça de Portugal no ano em que o Alpendurada subiu à 1ª divisão. Na altura era uma equipa semelhante à nossa (perdemos 3-2 no pavilhão deles, depois de termos feito 400 km no dia do jogo!!!). Essa equipa manteve-se na 1ª divisão pela contratação de jogadores profissionais brasileiros (semelhante ao que acontece actualmente no Fundão). Quem pagava? Não sei, as 50-60 pessoas que enchiam o pequeno pavilhão de escola secundária não eram certamente. O que é certo é que essa equipa (como muitas outras) entrou em processo de queda livre.
Estes exemplos, não são os que queremos (nem podemos) para o nosso distrito.
Não tenho dúvidas de que o Futsal, sendo praticado em boas condições para os atletas e para os espectadores (pavilhão, ao abrigo da chuva, do frio, do Sol), oferece o que muitas vezes o Futebol não pode oferecer, e que, por isso, naturalmente, ocupará o seu próprio espaço!
É necessário criar escolas de formação (naturalmente pagas, como qualquer outra actividade desportiva, recreativa ou cultural) que dinamizem a modalidade, que permitam quadros competitivos desde as fases de iniciação, não pelo interesse em encontrar campeões, mas para conferir a vertente competitiva, fundamental para entusiasmar as crianças, para fidelizá-las à modalidade. Este é um projecto de uma década, ou mais, desenvolvido com competência, com controlo e avaliação, de forma segura e sustentada. É preciso envolver as escolas e o desporto escolar, os clubes, a AFE, a Universidade, as empresas. Deve procurar-se, numa primeira fase aumentar a quantidade de atletas e formar adequadamente treinadores e os restantes agentes desportivos envolvidos; numa fase seguinte, as autarquias deverão assumir o seu papel e decidir prioridades nos apoios. Parece-me, contudo, que o principal papel, está reservado ao governo: enquanto não avançar a regionalização, não teremos possibilidade de ter um país equilibrado nas oportunidades e na velocidade de desenvolvimento, desportivo inclusive. 
 - Já tens alguma experiência como seleccionador da AFE, quando se realiza o torneio Inter-associações existe muita diferença para com as selecções dos outros distritos?
Participei com as selecções distritais de Évora de Futsal nos torneios inter-associações em 3 épocas consecutivas e verifiquei uma evolução extraordinária ao longo destes anos. No primeiro ano estávamos claramente nos últimos lugares, enquanto no último ano conseguimos, por exemplo, num grupo de 4 selecções masculinas com maior tradição em participações nestes eventos e com uma fonte de recrutamento de atletas  muito mais alargada do que a nossa (Setúbal, Coimbra e Castelo Branco) ficar em 2º lugar no grupo de apuramento; no feminino, depois de eliminar selecções como Aveiro, Setúbal e Algarve, chegamos à “final-four” nacional, marco na nossa história de participações e perdemos na meia-final com a fortíssima selecção de Lisboa, por 3-2, no prolongamento estando a ganhar até poucos segundos do final. Para o terceiro e quarto lugar vencemos Braga por claros 5-1. Esta evolução demonstra que a “matéria” existe, basta haver trabalho consistente, sistemático e o contacto frequente com os melhores, para todos evoluirmos.
 - A selecção portuguesa de Futsal feminino regressou ao activo, é possível fazer chegar uma jogadora do nosso distrito à selecção?
Há muitas meninas com qualidade a jogar Futsal no nosso distrito, no entanto, com a saída da Rita Latas para a Universidade em Lisboa e para o Futebol em particular, parece-me que se perdeu a grande esperança para uma eventual convocatória para a selecção nacional nos próximos tempos.
 - Com a propaganda ao Futsal a ser cada vez maior, que conselhos gostavas de deixar aos jovens que estão agora a iniciar-se na modalidade?
Daria apenas dois exemplos, desculpem mas estes são mesmo aqueles que melhor conheço, os exemplos dos meus dois filhos. Ambos passaram pela formação em Futsal, um durante 6 anos e outro durante 3 anos. Ambos passaram pela formação de Futebol do Lusitano (no pelado e em condições lastimáveis de iluminação, bolas, etc.) O mais velho joga Futebol no Sporting Clube de Portugal (escalão de juvenis de 1º ano) e integra a selecção nacional de Portugal Sub 16. O mais novo joga Futebol no Sport Lisboa e Benfica (escalão benjamins de 2º ano). Ambos praticaram ainda outras modalidades desportivas (Natação e Basquetebol). O que têm em comum, que penso (desculpem a presunção) terão herdado um pouco do pai, um gosto muito grande pelo treino, são claramente comprometidos com a prática desportiva e têm conciliado sempre o gosto pelo desporto com a escola. O futuro não sabemos, mas eles parecem-me miúdos felizes, integrados, com muitos amigos e com muitas expectativas e sonhos! Ter crianças com sonhos é a satisfação e o desejo de qualquer pai e a realização de qualquer criança. Acreditem nos vossos sonhos e façam tudo para concretizá-los.
 - Para finalizar esta entrevista, deixa umas palavras aos leitores do blog.
Queria agradecer ao Énio ter-se lembrado de mim para este efeito. Quero deixar aos leitores deste blog um abraço e votos das maiores felicidades.





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