Beto: Olá chamo-me Beto, faço 33 anos a 24 de Abril. Sou da Tramaga, Ponte de Sor.
Fábio Coentrão: Quando nasceu o teu gosto para o futebol?
Beto: Nasci e já tinha uma camisola do Benfica à espera. Os meus pais dizem que desde que comecei a andar logo a bola esteve presente. Na infância, na Tramaga, lembro-me que ou íamos para a barragem ou estávamos no campo a jogar. Ou então, em jogos de 1X1 e 2X2 na rua, com balizas pequenas feitas com pedras. Só mais tarde alcatroaram as ruas. Sempre entrei em torneios concelhios mas só quando fui para a preparatória em Ponte de Sor, aos 10 anos, é que comecei a jogar federado no Eléctrico.
Fábio Coentrão: Que equipas representaste nos escalões de formação?
Beto: Comecei no Eléctrico. No meu último ano de juvenis, a equipa não entrou no campeonato e fiz o distrital pelos juniores do Benavilense. No primeiro ano de júnior, como o Eléctrico continuava sem equipa, fui para os Foros do Arrão. Quando faltava pouco mais de um mês para acabar o campeonato, o presidente organizou um jogo de juniores contra seniores. Correu tão bem que o treinador dos seniores convocou-me para o jogo a seguir. Jogava pelos juniores ao sábado e pelos seniores ao domingo. Como estávamos na fase decisiva para subir de divisão, ganhei dinheiro pela primeira vez, com prémios por vitória e, no final, pela subida. Lembro-me que já eram quantias consideráveis. No ano a seguir, o Bacalhau foi contratado para treinar os seniores do Montargilense e levou-me. Tinha idade de júnior mas já não joguei mais nesse escalão.
Fábio Coentrão: Qual a equipa pela qual te deu mais gosto jogar enquanto jogador jovem e porquê?
Beto: Todos os clubes, com as suas diferentes especificidades e realidades, foram uma aprendizagem. Ajudaram-me a crescer como pessoa e, mais importante, deixei grandes amigos em todos eles. Mas cresci a ver o Eléctrico, foi o meu primeiro clube federado e vestir aquela camisola é diferente.
Fábio Coentrão: Que equipas representaste enquanto sénior?
Beto: Como disse anteriormente, ainda com idade de júnior, joguei nos seniores de Foros do Arrão e Montargilense. Só no primeiro ano de sénior regressei ao Eléctrico, onde estive 6 anos. Parei devido a uma lesão grave no joelho, que só se resolveu com uma intervenção cirúrgica. Depois de 2 anos parado, fiz 3/4 meses no Brotense, 3 épocas no Montargilense, 1 no Sintra Football e 1 no Luso Morense.
Fábio Coentrão: Sei que já tiveste oportunidade de treinar com equipas de qualidade como o caso do Farense, Olhanense, Oriental e Olímpico do Montijo. Que ilações retiras dessas experiências? E em que modo enriqueceram a tua capacidade enquanto jogador e pessoa?
Beto: Pode parecer estranho, mas praticamente durante todos estes anos como sénior, treinava com uma equipa e jogava por outra. A minha chegada ao Eléctrico coincidiu com a entrada para a Universidade do Algarve e treinava com os juniores do Farense – apenas treinava à sexta-feira em Ponte de Sor. Foi em Faro que percebi que as diferenças no futebol não são assim tão grandes. Três semanas depois, o treinador convidou-me para assinar porque não sabia que era o meu primeiro ano de sénior. Nessa equipa, jogava Fábio Felício, Bruno Mestre, China, entre outros, que chegaram à I Divisão e a clubes estrangeiros. Percebi então que o futebol, para além do trabalho e da qualidade individual, também é feito de sorte, oportunidades e até de proximidades geográficas. Nascer no interior é, sem dúvida, um valente handicap. No Olhanense e Oriental, como estavam na II Divisão B, percebi a realidade de treinar praticamente todos os dias, alguns de manhã e à tarde, mas principalmente como é a vida de um jogador profissional de escalões mais baixos. A grande maioria passa por muitas dificuldades financeiras e acabei por ter a confirmação de que estudar e ter outra profissão foi a melhor aposta. Destaco ainda o ano em que fui treinado por Chalana. Percebi que os grandes craques podem ser tão humildes que conseguem transmitir-te ensinamentos quase diariamente.
Fábio Coentrão: De todas as equipas que representaste, qual a que recordas com mais saudade?
Beto: Acredito que aprendi em todas, mas o Eléctrico será sempre especial. Embora fique a mágoa de nunca ter jogado oficialmente pela Tramaga. No entanto, naquela altura era impossível dizer não ao Eléctrico só para jogar no clube da terra.
Fábio Coentrão: Como surgiu o convite para jogares no Luso Morense?
Beto: Já tinha representado o clube o ano passado. Com o nascimento da minha filha, decidi não jogar mais. Depois, dois factores fizeram com que voltasse atrás: a revista onde eu trabalhava fechou e fiquei com mais tempo disponível; por outro lado, a contratação do mister Medeiros garantiu-me que se ia fazer um trabalho sério e que este final de época teria certamente mais êxitos do que derrotas. Neste momento, 3 vitórias e 1 derrota pela margem mínima na casa do 1º classificado estão a dar-me razão.
Fábio Coentrão: Como classificas essa tua passagem pelo futebol de Évora?
Beto: Muito diferente de Lisboa e mais parecida com Portalegre. Perde pelas condições: há muitas equipas mas as infra-estruturas são fracas. Por exemplo, nesta divisão, das 14 equipas, apenas 2 têm sintético. E há mais uma coisa: as arbitragens são do mais horrível que já vi. Às vezes nem acredito no que vejo e ouço dos árbitros. Pessoas mal formadas e sem qualidades técnicas e humanas para dirigir um jogo de futebol.
Fábio Coentrão: Com a crescente escassez de liquidez e aumento das dificuldades financeiras, é importante as equipas apostarem nos produtos da sua cantera e principalmente nos jogadores nacionais, concordas com este facto? Que conselho deixas aos treinadores/directores que não estão dispostos a apostar nos jovens?
Beto: Concordo. Deviam limitar o número de estrangeiros e, nas camadas jovens, devia ser ainda mais reduzido. Quanto aos dirigentes, há que responsabilizá-los. Para a maior parte, o que interessa são os resultados. Por exemplo, se um clube que apostou na subida chega a Dezembro sem hipóteses, já não paga mais ordenados. E no ano a seguir a história repete-se. Quem se comprometeu a pagar esse valor devia ser responsabilizado – nem que fosse através dos bens pessoais -, pois os resultados acabam por estar “falseados” e o único prejudicado é o jogador.
Fábio Coentrão: Como vês o futuro das equipas alentejanas em provas nacionais? E até onde poderão chegar equipas como Eléctrico, Moura, Montemor, Aljustrelense, Atl. Reguengos entre outros.
Beto: Com a crescente crise económica nacional e mundial, o futuro não vai ser nada risonho. Estas equipas não conseguem ser competitivas nem que seja numa III Divisão apenas com jogadores da área de residência e os atletas de fora são mais caros, pois precisam de estadia e alimentação. Os clubes necessitam de se reestruturar e serem mais racionais. Gastar apenas o que podem e tentar arranjar o máximo de rendimentos. Por fim, apostar na formação de atletas que cheguem à equipa principal e, quem sabe, dar algum dinheiro numa futura transferência.
Fábio Coentrão: Como pergunta de praxe e tendo em conta que o objectivo deste blog é dar a conhecer novos “Cracks” perdidos pelas distritais, podes referir se houve algum jogador que tivesse chamado a atenção e que achasses que poderia chegar mais longe?
Beto: Acredita que não são assim tão poucos. Mas nos Foros do Arrão conheci aquele que mais guardo na memória: Jójó. Já era um veterano mas nunca vingou devido ao comportamento fora de campo. No entanto, lá dentro e com a bola nos pés, nunca vi nada igual. Um predestinado. Mais tarde, conheci colegas dele no V.Setúbal e todos disseram que era um fora de série, mas que factores extra-futebol não o deixaram vingar ao mais alto nível.
Fábio Coentrão: Quais são os teus objectivos pessoais de momento?
Beto: Divertir-me e tentar ganhar todos os jogos com o Luso. E não se pense que digo isto de ânimo leve. Acredito piamente que esta equipa não vai perder até ao fim do campeonato.
Fábio Coentrão: Quero agradecer a tua disponibilidade para responder às minhas perguntas! Em meu nome desejo te as maiores felicidades! grande abraço!
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