quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A remar contra o imobilismo


É mais uma das grandes obras do consagrado escultor António Vidigal, desenhada na doce tranquilidade do rio Ardila com a matéria-prima da juventude local e esculpida com a arte e a mestria de um filho da terra.

Texto e foto Firmino Paixão


A notícia da conquista de um título nacional de remo por um atleta do Grupo União Safarense (GUS) configurava algo de surreal. Ao clube de Safara, ainda que centenário, não se lhe conhecia atividade desportiva, muito menos no remo, cuja prática carece de logística e infraestruturas de alguma singularidade. Mas as dúvidas dissipam-se quando descemos as arribas da margem esquerda do Ardila para um diálogo muito cordial e enriquecedor com o mestre António Vidigal, um ilustre filho de Safara ali nascido em 1936, de onde saiu para cursar Escultura na Escola Superior de Belas Artes, de Lisboa, curso que concluiu há quase meio século. É da sua arte de moldar o inimaginável que está a sair esta escola de remo que se associou ao GUS, e se o fizer, que faz, com a mesma mestria com que dinamizou a modalidade no Centro Universitário de Lisboa ou que criou o Náutilos Clube de Regatas, nas Caldas da Rainha, e com a criatividade com que desenhou a estátua do Santo Condestável, em Alcobaça, teremos obra. O remo no Baixo Alentejo será uma realidade.
E foi com muita simplicidade que o professor catedrático da Faculdade de Belas Artes em Lisboa nos contou que “nasci em Safara, gosto muito da terra, são as minhas raízes e eu sou, digamos, um histórico do remo. Este é o sexto grupo que eu ponho a funcionar. Tenho uma série de barcos e pensei, vou levá-los para baixo e vou tentar fazer alguma coisa na minha terra, porque estes miúdos não têm alternativa nenhuma, sobretudo em tempo de férias”. E continuou: “Lembro-me da minha juventude e o que é que nós fazíamos aos fins de semana? Nada! E hoje tenho a impressão de que as coisas estão ainda mais graves nesse aspeto. Os miúdos têm a televisão, têm os computadores e têm coisa nenhuma”. Não foi, portanto, o Safarense que descobriu o remo, foram as embarcações que ancoraram no clube, mercê da vontade e da dinâmica de um ilustre praticante da modalidade, escultor internacionalmente premiado e com obras públicas por todo o País. “Seria impossível começar um clube de remo sem que previamente existissem as condições que eu coloquei à disposição do GUS. Qualquer barquinho custa milhares de euros, não podia chegar aqui e pedir ao clube uns quantos milhares de contos para começarmos um clube. Obviamente que isso nunca seria viável e hoje em dia seria impensável”, explica. António Vidigal pôs à disposição da Secção de Remo dos GUS oito embarcações verdadeiramente preciosas, e referiu: “Temos um bom parque de barcos, quando estiverem todos em funcionamento teremos mais lugares do que remadores. Neste momento temos 10 remadores (seis rapazes e quatro raparigas), eu só queria quatro, porque temos que ter consciência das diferentes capacidades, não só de barcos, como humanas e disponibilidade de tempo”.
Um bom património, muita dinâmica, potencial de crescimento e um título nacional, inédito, histórico para o GUS. “A vitória não foi por termos ganho, foi por termos lá ido. Criámos objetivos que nos divertiram, primeiro não morrer, segundo chegar ao fim, e terceiro não sermos os últimos … temos que levar isto a brincar, porque ganhando ou perdendo almoçamos sempre”, lembrou, acentuando que “foi importante para a autoestima da terra, aqui nunca acontece nada, mas as coisas não acontecem por si só, é preciso fazê-las acontecer, e isso aqui é um bocado estranho, fazer as coisas acontecer, disponibilizarmo-nos para fazer qualquer serviço público, não é fácil pegar nas pessoas. O pensamento é este, vocês decidam que eu estou de acordo, e isso mexe um bocado com a minha maneira de ser”. Com 60 anos de prática da modalidade, António Vidigal tem em mãos um trabalho de escultura que já queria ter acabado, mas tem no filho João o seu braço direito e principal ajuda porque “eu próprio apoio o GUS, que é um clube social criado no fim do século XIX, as pessoas vão ali tomar café, tem um grupo de teatro com algum dinamismo, mas sem tradição de provocar atividades, vamos ver se o remo faz algum milagre, eu vou picando”. O rio Ardila é a improvisada pista onde planam os projetos mais exequíveis. “Gostava de fazer aqui regatas, tínhamos que criar aqui condições de segurança, seria interessante, dinamizava o clube e a modalidade e dava vida a esta terra. O Ardila está equidistante de Safara e Amareleja onde existe uma escola secundária; com uma atividade mais intensa podíamos chamar essa rapaziada, a minha preocupação é ocupar os miúdos, pô-los a remar bem e provocar-lhes o gosto pela modalidade”, concluiu.

Fonte: http://da.ambaal.pt/

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