sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Histórias da bola


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José Saúde

Encontrei-o num dos corredores do Hospital José Joaquim Fernandes, em Beja, e dissecámos pormenores sobre o destino que nos coube em sorte: o AVC. Carlos Venâncio, o Ildo como sempre foi conhecido no meio futebolístico e social, é um companheiro com quem partilhei, no início da década de 70, os balneários do Desportivo de Beja. E foram muitos os jogos em que eu, a defesa direito, e ele, a médio do mesmo lado, dividimos alegrias e tristezas com o evoluir da jogatana. Éramos jovens, esbanjávamos energia física e defendíamos, com garra, a camisola do Desportivo. Nas correrias loucas ao longo do desafio, traçávamos princípios para uma jogada de ataque, ou para defender o nosso setor mais recuado. O meu “compadre”, como amigavelmente sempre nos tratámos, lançava-me incentivos para uma subida pelo corredor que originasse um cruzamento para a área adversária onde o Horta, o Caetano, o João Rosa, avançados sempre astutos e determinados para o golo, apareciam como flechas. Naquele tempo, a nossa compleição atlética jamais resvalou para um mundo de enfermidades. Pelas nossas cabeças não passava confrontos com tamanho azar. O azar surgia inserido no contexto do jogo: foi o Horta que falhou um golo de baliza escancarada, o João Rosa que atirou uma bola à trave, o Caetano que sofreu uma falta, não penalizada para castigo máximo, e ainda uma ida fortuita da equipa contrária à nossa baliza e o sofrer de um golo que considerávamos injusto. Agora, as nossas histórias da bola são outras. No mundo dos silêncios, surgem à tona das nossas mentes explanações que nos levam a concluir que atirar a toalha ao chão nesta luta titânica que diariamente travamos, era dar trunfos a um “mal” que atualmente fustiga uma sociedade que convive com pavor com a tragédia. E se no futebol tivemos dirigentes de enorme postura, senhores ilustres e competentes, agora, a contas com a desventurada doença, encontramos pessoal especializado que brilhantemente trabalha em prol da nossa recuperação. Compadre, o próximo duelo é mesmo para vencer! 

Fonte: http://da.ambaal.pt

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