José Saúde
Viajando pelos trilhos de aromatizadas memórias
damos por nós a revermos a desassossegada mocidade onde lugares comuns
nos enchiam de extravagantes prazeres. As Portas Mértola, em Beja,
assumiam-se como um dos espaços lúdicos para a rapaziada curtir
diferentes gozos que a verde idade impunha a um jovem que sonhava não só
com a lei da vida, assim como a afinidade de laivos que o cosmos
desportivo propunha. Peregrinando pelos anos já distantes, fixemo-nos
num dos ex-libris bejenses chamado a “meia laranja”. Na “meia laranja”,
cravada entre a Ginjinha, um estabelecimento bíblico cujo proprietário
era o nosso saudoso e prezado amigo Secundinho, um exímio mestre nos
condimentos das famosas carochas, o lendário café Luiz da Rocha, por
onde deambulavam moças airosas, e a Papelaria Correia, dissecavam-se os
espíritos clubísticos, ou se mergulhava em inigualáveis tertúlias que
cada um dos comparsas partilhava. No mês de agosto, época de canícula,
recordo efusivamente as horas passadas naquela nostálgica tribuna onde
as novidades surgiam em catadupa. O dia de São Lourenço, 10, data da
tourada inserida no cartaz da feira anual, era uma oportunidade para os
cavaleiros de elite vistoriarem o lugar e mostrarem-se a um público que
vivia, com êxtase, o fidalgo momento. Mas a “meia laranja” era,
simultaneamente, a montra para os novos craques do Desportivo de Beja se
apresentarem à cidade. Lembro a azáfama quotidiana por uma ida ao local
de “culto” para mirar os deuses da bola que vaidosamente por ali
passeavam os seus estilos corporais. Num exercício feito a essas
notáveis recordações, relembro que pela meia laranja desfilavam
personagens civis e desportivas. Falava-se de tudo. Cruzavam-se ideias,
debatiam-se ideais e a diversidade de temas tratados eram ajustados a
supostas querelas. Dialogava-se sobre a questão das aquisições de
jogadores postas a circular pelo emblemático Desportivo, das
transferências conhecidas e da ida de fulano tal para um dos emblemas
sonantes do futebol lusitano. Tudo se dispersava a contento dos
defensores da causa. Na “meia laranja” exercitavam-se esplêndidos ápices
de uma juvenilidade que idealizava um destino próspero. À tona da mente
evoco, ainda, as tardes infindáveis em que a rapaziada se debruçava
sobre a cumplicidade com o desporto automóvel. Os carros dos ralis,
eventos estrondosos da época, faziam da “meia laranja” uma excelente
passarela para os pilotos mostrarem a grandiosidade das suas portentosas
viaturas. As “bombas”, ocasionalmente transformadas, alegravam o olho a
uma moçada que se deslumbrava com as imagens infernais que as máquinas
suscitavam. Sintetizando: como eram elevados esses tempos desportivos
vividos na “meia laranja”!
Fonte: http://da.ambaal.pt/
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