Baiôa
José Saúde
Mexer com uma retaguarda onde
proliferaram antigos deuses da bola é uma indeclinável efeméride! A sua
pequena estatura não inviabilizou a qualidade de um jogador de classe
nas décadas de 1950 e 1960. Drible curto, velocidade e golo. Um
triângulo que sumariamente foi sinónimo de astro. Integrado no xadrez de
equipas que imensuravelmente ditaram excelentes campanhas, o endiabrado
extremo direito deixou saudades. Falo de José Alves Godinho Baiôa, um
cidadão que nasceu em Mértola no dia 13 de setembro de 1940. Numa
leitura ao registo do Baiôa, damos conta que o jogador não passou pelos
escalões de formação. Na sua terra natal, localidade situada junto à
margem direita do rio Guadiana, Baiôa iniciou-se num grupo denominado
Juventude. O propósito era disputar jogos particulares com equipas de
freguesias vizinhas. Só que o jovem cedo deu nas vistas. Na época de
1958/1959 recebeu dois convites para jogar oficialmente: um, do Lusitano
de Vila Real de Santo António; outro, do Desportivo de Beja. Francisco
Barbosa e António Teixeira, dirigentes do grémio bejense, foram os
homens que estiveram na origem da sua aquisição. Nesse tempo o
Desportivo jogava na segunda divisão nacional e tinha uma equipa onde
proliferavam figuras do proa. Zezé, Alves, Perdigão, Apolinário, Meira,
Marcelino, Madaleno, Antonete, entre outros, são alguns dos nomes desse
“exército” de craques. Di Paola, Manuel Trincalhetas e Telexea, foram
alguns dos treinadores que primaram pela sua evolução. Na capela onde
guarda esmeradas recordações, evoca um jogo no estádio da Luz a contar
para uma eliminatória da taça de Portugal frente ao Benfica: “Nesse dia
estava endiabrado. Meti os cabelos do Mário João em pé e fiz um golo ao
Costa Pereira”. O momento áureo levou o Sporting da Covilhã, Atlético e
Barreirense endossarem-lhe propostas de trabalho. Mas, quando nada o
fazia prever, Baiôa, sendo o seu nome dado como confirmado na agremiação
de Alcântara, pensou em desertar da tropa. E fê-lo. Do quartel de
Queluz ao Forte de Elvas foi um passo. Na temporada de 1964/1965
regressou ao Desportivo. Desses gloriosos tempos recorde-se um onze:
Alves, Barbas, Perdigão, Hélder Lino, Baião, Baiôa, Nói Madeira,
Fernandes, Dionísio, Madaleno e Faustino. Em Beja esteve até final da
temporada de 1969/1970. Seguiu-se Moura, como jogador/treinador do
Atlético e, finalmente, o Guadiana de Mértola. Baiôa era um contador de
histórias perfeito. Um homem de negócio. Vendia roupa e relógios. Um dia
no balneário do Desportivo encomendámos-lhe peúgas e outras peças de
vestuário, sinalizando, de pronto, o material negociado. Só que a
encomenda não havia meio de chegar e perguntámos qual a razão da demora.
Resposta pronta: “Malta, o barco que transportava o carregamento ficou
apreendido na Canal Suez”. Num jogo em Évora, quando Suarez era o nosso
mister, defrontámos o Juventude e houve um lance em que eu, defesa
direito, ia dividir a bola com o defesa esquerdo, mas o bom do Baiôa
antecipou-se e no choque com o adversário partiu um pé. No regresso a
Beja fomos dar os parabéns ao nosso companheiro João Caixinha que tinha
casado e dar-lhe a boa nova da vitória (1-0). A boda teve lugar na
quinta do Visconde, Boavista, e o Baiôa, mesmo coxo, “desviou” um peru
assado da “mesa real” e lá o fez transportar debaixo da gabardine que
ocasionalmente vestia. Coisas da bola e de um amigo que jamais será
esquecido!
Fonte: Facebook de Jose Saude
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