sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Bola de trapos, edição no Diário do Alentejo de 9 de fevereiro de 2018

Baiôa
José Saúde
Mexer com uma retaguarda onde proliferaram antigos deuses da bola é uma indeclinável efeméride! A sua pequena estatura não inviabilizou a qualidade de um jogador de classe nas décadas de 1950 e 1960. Drible curto, velocidade e golo. Um triângulo que sumariamente foi sinónimo de astro. Integrado no xadrez de equipas que imensuravelmente ditaram excelentes campanhas, o endiabrado extremo direito deixou saudades. Falo de José Alves Godinho Baiôa, um cidadão que nasceu em Mértola no dia 13 de setembro de 1940. Numa leitura ao registo do Baiôa, damos conta que o jogador não passou pelos escalões de formação. Na sua terra natal, localidade situada junto à margem direita do rio Guadiana, Baiôa iniciou-se num grupo denominado Juventude. O propósito era disputar jogos particulares com equipas de freguesias vizinhas. Só que o jovem cedo deu nas vistas. Na época de 1958/1959 recebeu dois convites para jogar oficialmente: um, do Lusitano de Vila Real de Santo António; outro, do Desportivo de Beja. Francisco Barbosa e António Teixeira, dirigentes do grémio bejense, foram os homens que estiveram na origem da sua aquisição. Nesse tempo o Desportivo jogava na segunda divisão nacional e tinha uma equipa onde proliferavam figuras do proa. Zezé, Alves, Perdigão, Apolinário, Meira, Marcelino, Madaleno, Antonete, entre outros, são alguns dos nomes desse “exército” de craques. Di Paola, Manuel Trincalhetas e Telexea, foram alguns dos treinadores que primaram pela sua evolução. Na capela onde guarda esmeradas recordações, evoca um jogo no estádio da Luz a contar para uma eliminatória da taça de Portugal frente ao Benfica: “Nesse dia estava endiabrado. Meti os cabelos do Mário João em pé e fiz um golo ao Costa Pereira”. O momento áureo levou o Sporting da Covilhã, Atlético e Barreirense endossarem-lhe propostas de trabalho. Mas, quando nada o fazia prever, Baiôa, sendo o seu nome dado como confirmado na agremiação de Alcântara, pensou em desertar da tropa. E fê-lo. Do quartel de Queluz ao Forte de Elvas foi um passo. Na temporada de 1964/1965 regressou ao Desportivo. Desses gloriosos tempos recorde-se um onze: Alves, Barbas, Perdigão, Hélder Lino, Baião, Baiôa, Nói Madeira, Fernandes, Dionísio, Madaleno e Faustino. Em Beja esteve até final da temporada de 1969/1970. Seguiu-se Moura, como jogador/treinador do Atlético e, finalmente, o Guadiana de Mértola. Baiôa era um contador de histórias perfeito. Um homem de negócio. Vendia roupa e relógios. Um dia no balneário do Desportivo encomendámos-lhe peúgas e outras peças de vestuário, sinalizando, de pronto, o material negociado. Só que a encomenda não havia meio de chegar e perguntámos qual a razão da demora. Resposta pronta: “Malta, o barco que transportava o carregamento ficou apreendido na Canal Suez”. Num jogo em Évora, quando Suarez era o nosso mister, defrontámos o Juventude e houve um lance em que eu, defesa direito, ia dividir a bola com o defesa esquerdo, mas o bom do Baiôa antecipou-se e no choque com o adversário partiu um pé. No regresso a Beja fomos dar os parabéns ao nosso companheiro João Caixinha que tinha casado e dar-lhe a boa nova da vitória (1-0). A boda teve lugar na quinta do Visconde, Boavista, e o Baiôa, mesmo coxo, “desviou” um peru assado da “mesa real” e lá o fez transportar debaixo da gabardine que ocasionalmente vestia. Coisas da bola e de um amigo que jamais será esquecido!
Fonte: Facebook de Jose Saude

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