sexta-feira, 17 de maio de 2019

Bola de trapos, edição de 17 de maio de 2019 no Diário do Alentejo

José Saúde
“Meia-laranja”
A “meia-laranja”, situada em plenas Portas de Mértola, em Beja, era um local onde a rapaziada se juntava para dois dedos de conversa. Ladeada pelo mítico Café Luiz da Rocha, em frente a famosa Ginjinha e ao centro a Papelaria Correia, ali falava-se de tudo. O indeclinável sítio era o ideal para se analisar o mundo desportivo e não só. Comentavam-se as novidades, falava-se sobre os clubes e escutavam-se as últimas informações postas a circular na cidade, ou as novas que chegavam doutros pontos do distrito. A “meia-laranja” era uma espécie de jornal noticioso. Nas tardes em que havia jogo de futebol no estádio Dr. Flávio dos Santos, a rapaziada concentrava-se nesse ícone bejense, lançava palpites e de seguida caminhava pelas ruelas próximas que conduzia o aglomerado de pessoas ao fantástico recinto. As ruas dos Açoutados, da Branca e da Biscainha albergavam grupos de homens que desembocavam na Avenida Vasco da Gama e rumavam ao encontro de um desafio que merecera ao longo da semana uma consentânea cavaqueira. Neste deambular pelo tempo, revejo instantes que nos remetem para o anfiteatro da saudade. Relembro as multidões que o estádio regularmente acolhia e o ênfase de emoções absorvidas por um público que preenchia por completo as áreas circundantes daquele extraordinário campo desportivo. Reflito sobre a azáfama de crianças que procuravam um suposto pai que os conduzia, pela mão, ao interior do recinto. Recordo as imensas filas de gentes que se dirigiam às bilheteiras para obterem o passe de acesso ao espetáculo. Eram os tempos em que o Desportivo e o Despertar levavam muitas pessoas à bola. Mas a “meia laranja” era, também, um lugar de “culto”. Por lá passeavam-se airosas moças, algumas delas com exuberantes minisaias que mostravam a esbelta escultura das suas pernas atléticas, sendo que os olhares marotos dos rapazes deslizavam para o mundo de impetuosas paixões. Nas tardes e noites de verão, com as temperaturas a atingirem o seu auge, surgia, por norma, o tema das aquisições no que concernia em concreto ao Desportivo. Dialogava-se sobre os novos craques, bem como se assistia a uma roda-viva de quem se expunha a pretensas bisbilhotices. Na “meia laranja” exercitavam-se esplêndidos ápices de uma juventude que idealizava um futuro próspero. À tona das lembranças evoco as tardes infindáveis em que a rapaziada se debruçava sobre a cumplicidade que o desporto automóvel propunha. Os carros, transformados oportunamente para ralis, assumiam-se como colossais eventos numa região que vivia com entusiasmo o inolvidável acontecimento, sendo a “meia laranja” a montra por onde passavam as barulhentas máquinas. Hoje, a saudosa “meia laranja” é apenas um espaço onde jazem cordiais memórias de outrora!
Fonte. Facebook de JOse Saude.

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