Sou claramente um dos privilegiados que tem a sorte e o orgulho de privar de perto com um Homem tão especial do nosso futebol. Um Homem que com tudo o que viveu,tanto como atleta, ou como treinador, era tão fácil ser "superior" a todos nós que ainda não saímos do burgo.
Melhor que isto, é a maneira como conseguiu passar essa "superioridade" em experiências de muitos anos ligados a esta paixão comum a tanta gente. Sempre com a sua humildade e sem nunca passar por cima de ninguém.
Resta agradecer por todos os dias conseguir aprender sempre mais um pouco. E quem o conhece, sabe que até numa simples frase, este Homem respira futebol.
Obrigado mister Francisco Agatao, será sempre um prazer

MISTER Francisco Agatão aceitou o nosso desafio.
Antes
Antes de mais agradecer à página do Facebook Velha Guarda da Bola pela oportunidade de falar sobre a minha vida no futebol. Bem haja.Nasci no ano de 1960 na cidade de Beja, no Terreirinho das Peças que viria a ser conhecido e a tornar-se famoso pela quantidade de jogadores que ali se formaram jogando uns contra os outros, tipo muda aos 5 acaba aos 10. Joguinhos intensos, fortes, vibrantes e que nos fortaleceram para o futuro.Grande escola aquela onde a aprendizagem era diária e feita por cada um de nós. Sou oriundo de uma família de seis irmãos e cinco deles jogaram futebol no clube mais popular da cidade, o CD Beja.
Ao invés, fiz toda a minha formação num clube nóvel da cidade ACR Zona Azul que se formou no meu primeiro ano de juvenil e que numa primeira fase só apostava nos escalões de formação. Foram quatro anos muito bons num clube que primava por formar jogadores, mas também homens, e nesse aspecto o Quinito e o Zé Manuel tiveram um papel preponderante pelas lições de vida que nos passavam e os ensinamentos que diariamente nos transmitiam. Dois anos de juvenil com apuramentos para os Nacionais e dois anos de juniores ambos na 1ª divisão jogando contra clubes de grande nível e contra jogadores que mais tarde se tornaram famosos pela sua carreira em clubes do top do futebol português.
Ainda na formação tive a oportunidade de ser convocado para os treinos da selecção de juvenis mas infelizmente não fui um dos eleitos e nunca consegui concretizar o sonho que acho que é comum a todos os jogadores de futebol, representar o seu País. No meu último ano de júnior, por incrível que possa parecer, também era roupeiro. Representar a ACR Zona Azul foi motivo de muito orgulho e ainda hoje essas equipas são lembradas na cidade pelos resultados que alcançaram e pelo bom futebol que praticavam. Bons tempos esses. A par de futebol estudava à noite e já trabalhava a carregar sacos de trigo na EPAC, a necessidade de ajudar a família a isso obrigava, fui também servente de serralheiro na construção do Matadouro de Beja.No meu primeiro ano de sénior tive a oportunidade de representar o meu clube do coração, aquele onde sempre sonhei jogar, CD Beja, que na altura tinha alcançado a subida à 2ª Divisão Nacional.Foi um ano fantástico, só com jogadores da região, conseguimos a manutenção e no meu caso fui diversas vezes utilizado.
No segundo ano a aposta foi um pouco mais alta, fizemos uma primeira volta espectacular, viramos em 2º lugar, mas infelizmente o clube passou por momentos conturbados financeiramente e não conseguimos manter a divisão. No ano seguinte fui para o Despertar SC na distrital de Beja e apesar de também não recebermos formamos um grupo muito forte que conseguiu o feito de ganhar o Campeonato e a Taça e a consequente subida à 3ª divisão Nacional.Retornei ao Clube Desportivo de Beja (Pagina Oficial) também ele na distrital e mais uma vez conseguimos vencer o Campeonato e a Taça sem derrotas.Sinto que fui um privilegiado por ter tido a oportunidade de representar os três clubes mais importantes da cidade de Beja e deixar em todos eles uma marca de compromisso, responsabilidade e profissionalismo.Por essa altura já recebia convites para sair e representar outros clubes. Lembro-me que o J. Évora e SC Sporting Clube Campomaiorense se deslocaram a Beja para me convencer a representá-los, mas por ser o filho mais novo e por sentir que os meus pais necessitavam do meu apoio fui sempre negando essa possibilidade.
A minha ideia naquela altura, até pela educação que tinha era de arranjar um trabalho que me garantisse o futuro, ser profissional de futebol não fazia parte das minhas cogitações.Corria o ano de 83 quando se deslocaram a Beja directores do "O Elvas" CAD formalizando um convite que após a anuência do meu pai resolvi aceitar. Em boa hora o fiz. Vivi dois anos maravilhosos em Elvas, grupos muito fortes que realizaram campeonatos muito bons e eliminatórias da Taça de Portugal que ficarão para sempre na nossa memória. Adeptos fantásticos com uma grande paixão, basta ver que a bancada estava sempre bem composta de gente a ver os treinos e nos jogos era normalmente casa cheia. Foi uma aprendizagem muito boa com colegas extraordinários que me ajudaram muito. Só foi pena não termos subido, feito que aconteceu no ano seguinte, já depois de ter saído para o Boavista.Honra muito grande ter representado O Elvas Clube Alentejano de Desportos .Seguiu-se o Boavista Futebol Clube , naquela altura era considerado o quarto melhor clube em Portugal e para mim foi um passo gigantesco, nunca tinha saído do Alentejo e ir para o Porto e para um clube daquela dimensão foi um sonho tornado realidade. Treinar e jogar ao lado de jogadores que só via na televisão e que admirava era qualquer coisa de extraordinário mas no fundo também era o reconhecimento do meu trabalho e dedicação. Participei em 137 jogos com a camisola axadrezada, divididos por Campeonato Nacional da 1ª divisão, Taça de Portugal e Taça UEFA. Conseguimos um terceiro lugar no Campeonato que foi, na altura, a segunda melhor classificação do Boavista na 1ª divisão.Em 90 vim para o Estrela Amadora que tinha com todo o mérito conquistado a Taça de Portugal no ano anterior. Foi um ano difícil apesar da participação na Taça das Taças onde conseguimos passar uma eliminatória, não foi possível garantirmos a permanência na 1ª divisão Nacional.
José Mourinho era o adjunto do treinador principal Manuel Fernandes.Seguiram-se dois anos na 2ª Divisão no segundo dos quais conseguimos a almejada subida com o título de campeões nacionais, segunda maior conquista na história do clube.Mais dois anos na 1ª divisão garantindo a estabilidade que o clube necessitava para se afirmar como um dos bons clubes da 1ª divisão.Ao serviço do Est. Amadora realizei 126 jogos, entre Campeonatos, Taça de Portugal, Supertaça e Taça da Taças.Jogar no Estádio José Gomes na Reboleira com um público vibrante e apaixonado é algo que não se esquece. Orgulho enorme.
Por fim o GD Estoril Praia , estava com 34 anos e o meu desejo era regressar à minha cidade e acabar a carreira no clube do meu coração, CD Beja que ao momento passava por uma fase muito boa. O convite do Carlos Manuel para ingressar no Estoril na 2ª Honra deitou por terra esse desejo e a serviço desta equipa conheci o melhor balneário da minha vida desportiva. Gente solidária, amiga, com um enorme sentido de partilha, pena foi que os salários em atraso, chegamos a ter cinco meses, acabassem por fazer ruir o desejo de subirmos quando tínhamos todas as condições humanas para o conseguir. Pauleta fazia parte dessa extraordinária equipa.Foram 34 jogos ao serviço dos canarinhos. Gente muito boa.Seria de todo injusto que no final da minha carreira como jogador não referisse o nome dos treinadores que tanto me ajudaram.Zé Manuel e Quinito, Honório Madeira, António Gama, Lança, Carlos Cardoso, João Alves, Pepe, Raúl Águas, Manuel Barbosa, Manuel Fernandes, Jesualdo Ferreira, Matine, Joaquim Teixeira, Fernando Santos e Carlos Manuel. O meu mais sincero e profundo agradecimento.Não podia também esquecer dirigentes fantásticos que ao longo da carreira me ajudaram a ser o que sou hoje.
Depois
O pós futebol no meu caso concreto não aconteceu pois fiquei ligado ao mesmo até aos dias de hoje.Primeiro como treinador assistente do Carlos Manuel com quem trabalhei oito anos em Portugal e um no Irão. SC Salgueiros, duas vezes, Sporting CP, SC Braga, SC Campomaiorense, CD Santa Clara e Sanat Naft foram os clubes que orgulhosamente representei e onde, felizmente deixei uma marca de competência, compromisso e profissionalismo assim como tive a felicidade de conhecer gente fantástica que enriqueceu e de que maneira, o meu ser.Em 2003 regressei ao CD Santa Clara para trabalhar na condição de treinador adjunto do clube e ajudar os treinadores que fossem contratados pelo clube. Trabalhei com o Filipe Moreira, José Morais e Ricardo Formosinho e com este último ainda repetimos a experiência ao serviço do CR Caála em Angola. A todos agradeço a partilha que comigo tiveram e a amizade sincera que dura até aos dias de hoje.
Depois de uma experiência como treinador principal no CD Santa Clara após a saída do José Morais entendi que tinha chegado a hora de assumir o desafio e no ano de 2005 aceitei o convite para treinar o Operário Açores onde me mantive durante sete anos e meio contribuindo para a consolidação do clube no Campeonato de Portugal. Foram anos extraordinários num clube com um sentido de família fora do vulgar e que acabaram por ser decisivos para que se alcançassem os objetivos que nos eram propostos no início de cada época.
Foi possível ultrapassar as cem vitórias, o que não deixa de ser significativo.Fui muito feliz ao serviço do Operário da Lagoa como é mais conhecido.Nos últimos cinco anos continuamos nos Açores mas desta feita na Ilha Terceira. Quatro anos ao serviço do SC Praiense, contribuindo para as melhores classificações da história do clube nesta divisão bem como participações na Taça de Portugal onde, parece-me, elevamos e dignificamos o nome do clube, da Praia da Vitória e da Ilha Terceira. Estivemos envolvidos em playoffs de subida à segunda liga mas infelizmente, por este ou por aquele motivo, não foi possível concretizar esse desiderato. Para a história ficam os números, 143 jogos, 117 sem perder, 88 vitórias e 243 golos marcados para além da dedicação, caráter, compromisso e profissionalismo evidenciados ao longo dos quatro anos em que tivemos a honra de servir a Instituição.Por achar que o meu percurso nos Açores ainda não estava terminado, ao todo são 15 anos no arquipélago, decidi aceitar o desafio de treinar Grupo Desportivo Fontinhas e tentar com o profissionalismo que me é reconhecido, contribuir para a valorização do clube e trabalhando arduamente para se conseguir alcançar os objectivos propostos. Para já estamos na luta e confiantes.Fica assim a traços largos, descrito, o que foi a minha carreira de jogador e treinador até aos dias de hoje, nunca esquecendo que quando não estive ligado ao futebol fui servente de arqueólogo, plantei árvores e apanhei fruta. O trabalho nunca me meteu medo e sempre me dignificou.
Por último agradecer aos elementos das equipas técnicas que fui formando ao longo destes anos e que muito me ajudaram na concretização dos objectivos.Bem hajam.Em jeito de despedida agradeço a todos os que de uma forma ou de outra se cruzaram na minha vida e contribuíram para melhorar o meu Ser. Tem sido uma caminhada fantástica e que tem contado com a ajuda e colaboração da minha família unida no amor, carinho, respeito e partilha.
Abraço fraterno a todos envolto no desejo de muita saúde.
Ao administrador da página Velha Guarda da Bola o meu mais sincero agradecimento.
Fonte: Facebook de Pagina da Velha Guarda.
Sem comentários:
Enviar um comentário