Firmino Paixão
O ciclismo é a marca do mês de agosto. Este é o mês e o tempo da Volta a Portugal em Bicicleta que, este ano, veio para a estrada celebrar as suas bodas de diamante, num ano em que também a mítica Volta a França assinalou o centenário.
Não deixa de ser marcante e bastante significativo que as principais provas da modalidade, Volta à Espanha e Giro de Itália incluídos, tenham tamanha longevidade. O ciclismo é um desporto que não deixa ninguém indiferente. O seu caráter popular, e a peculiaridade de ir às portas das pessoas despertar as suas emoções e acordar os seus sentimentos, confere-lhe assinaláveis créditos em que nenhuma outra modalidade desportiva consegue pontuar.
É por isso que, chegado este tempo, ansiamos conhecer os caminhos da volta, os pontos de partida e chegada do pelotão para aí estarmos a oferecer os nossos aplausos aos heróis de cada etapa.
As últimas edições da prova não têm contemplado o sul do País, uma região geográfica que representa mais de um terço do continente lusitano. Isso entristece-nos, dói-nos, toca-nos o mouro orgulho de sulistas e a dignidade de sermos alentejanos e estarmos, aparentemente, a ser ignorados por quem traça os percursos de tão empolgante prova desportiva. Não nos custa legitimar as opiniões de quem acha que a prova se deveria chamar de Volta a “meio” Portugal, por lhes ser, recorrentemente, negado o acesso a essa plateia de excelência que é a berma da estrada, de onde se aplaudem e incentivam todos os corredores. Haverá outra modalidade em que todos, sublinho todos, os protagonistas são aplaudidos e acarinhados de forma igual?
Também me dói que a principal prova portuguesa não toque, sequer, as fronteiras do meu Alentejo, mas compreendo as razões de tal ausência e partilho-as no sentimento de que possamos compreender a lógica das prioridades.
O tecido empresarial na região é ténue, quase inexistente e incapaz de suportar sucessivas e frequentes solicitações para patrocínios que neste caso envolvem umas dezenas de milhares de euros. Na primavera temos a Volta ao Alentejo, e ela representa a nossa identidade, promove a nossa terra, as nossas gentes, a nossa cultura e, invariavelmente, é veículo de divulgação dos nossos anseios, além de que quase tudo o que nela se investe tem retorno na própria região. Merece, por tudo isso, lugar de topo na hierarquia de prioridades das entidades, públicas ou privadas, que ainda vão podendo contribuir para a sua realização. Impensável seria cabimentar apoios simultâneos para a Alentejana e para a Volta a Portugal. Confortemo-nos, então, com o conhecimento de que a Volta a Portugal só acontece a norte do Tejo, porque no Alentejo, e no Algarve, felizmente, existem provas que são nossas e que não queremos perder. Uma etapa da Volta a Portugal é um acontecimento efémero, a Volta ao Alentejo tem cinco etapas pela região, percorrendo, numa semana, as nossas vilas e aldeias, para gáudio do nosso povo.
Preservemos e valorizemos “a Alentejana” mesmo que, eternamente, vejamos passar ao lado as bicicletas da “portuguesa”.
Fonte: http://da.ambaal.pt/
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