A família do futebol feminino voltou a reunir-se este domingo, em Vilamoura, no segundo dia do III Seminário Internacional.
Algarve Cup
O primeiro painel do dia foi constituído por Francisco Neto (Selecionador Nacional de futebol feminino), Carla Couto (embaixadora da Seleção Nacional de futebol feminino), Mónica Mendes (internacional portuguesa), Marco Ramos (treinador da equipa feminina no Ouriense) e Ana Valinho (jogadora do Ouriense).
As temáticas abordadas variaram entre o caso de sucesso do Ouriense na última temporada, a necessidade de aumentar o campo de recrutamento de jogadoras para a Seleção Nacional, as linhas orientadoras do futuro do futebol feminino em Portugal, a experiência de Mónica Mendes como jogadora e estudante nos EUA e ainda a importância de ter uma referência como Carla Couto em contacto permanente com a Equipa das Quinas.
Ideias-chave:
Francisco Neto (Selecionador Nacional de futebol feminino): "Fazemos observação semanal de todas as equipas, temos vindo a notar melhoria da qualidade dos treinadores e das jogadoras. A nossa evolução deve-se em muito ao trabalho dos clubes. Estamos a trabalhar com todo o afinco para desenvolver a jogadora portuguesa. Queremos aprender com os melhores, é com eles que podemos evoluir. Para nós é fundamental estar envolvidos neste contexto exigente. É com grande orgulho que recebemos uma mensagem de Mourinho antes da Algarve Cup, ele tem noção das dificuldades que passamos. É sempre bom receber uma palavra de conforto."
Carla Couto (Embaixadora da Seleção Nacional de futebol feminino): "Temos de valorizar as mulheres que estão inseridas no futebol feminino. Acredito que o crescimento da modalidade vai ser um processo natural. O futebol feminino precisa de visibilidade. As adversidades que as jogadoras vivem todos os dias, para além das limitações dos clubes, só demonstram a paixão que sentem pelo jogo. A jogadora portuguesa tem muita força de vontade e espírito de sacrifício."
Mónica Mendes (internacional portuguesa): "É sempre gratificante receber um incentivo de Mourinho. É dos melhores treinadores do mundo e sentimos que está connosco. Sentir o seu carinho é muito bom. Gostamos de jogar frente às melhores equipas mundiais e queremos desenvolver o futebol feminino em Portugal. Nos EUA, a modalidade é levada muito a sério, embora a realidade económica seja bem mais desafogada que a portuguesa. Nós temos uma paixão enorme por futebol, dificilmente alguma jogadora de outra nacionalidade superará esse orgulho. Antes morava em Almada e fazia duas horas e meia para ir treinar a Sintra! Vamos continuar a crescer, a jogadora portuguesa é muito persistente."
Marco Ramos (treinador do Ouriense): "Queremos sempre fazer algo diferente. E não estamos apenas a falar de títulos, podemos fazer com que o futebol feminino seja melhor e com que as nossas jogadoras possam estar num contexto diferente como o da Seleção Nacional. Quanto mais os clubes trabalharem as jogadoras, mais benefícios terá a seleção. Portugal está a começar a criar bases para que a base de recrutamento seja maior. A nossa experiência na Liga dos Campeões feminina foi gratificante porque nos ensinou a preparar encontros quase sem treinar."
Ana Valinho (jogadora do Ouriense): "Nós, jogadoras, podemos e queremos ajudar o futebol feminino a crescer. Jogo porque gosto de jogar, não tenho retorno financeiro desta atividade. No Ouriense há algumas ajudas às atletas que estudam noutras cidades. Acho que a jogadora portuguesa joga por paixão ao jogo."
Plano de Desenvolvimento do Futebol Feminino
Coube a Mónica Jorge, Diretora da FPF para o futebol feminino, e a Francisco Neto, Selecionador Nacional de futebol feminino, a tarefa de explicar com detalhe as traves mestras do Plano de Desenvolvimento para o futebol feminino, que tem como pontos principais a criação de novas competições (liga de elite, supertaça e campeonato nacional de juniores), a realização de encontros nacionais e regionais sobre futebol feminino (em parceria com o Desporto Escolar e ADR's) e a construção de centros de treino para a prática do futebol feminino desde tenra idade.
Os objetivos desta política do organismo que tutela o futebol nacional foram, também clarificados por Mónica Jorge: "O que queremos é construir as bases do futuro através do desenvolvimento e promoção do futebol feminino e do aumento do número de praticantes. Já tivemos o reconhecimento da própria FIFA em relação a estas ideias, congratulamo-nos por isso, e esperamos que a FPF se orgulhe daqui a uns anos de ter conseguido o crescimento sustentado do futebol feminino no nosso país."
O Selecionador Nacional de futebol feminino, Francisco Neto, elencou as intenções do Plano de Desenevolvimento do ponto de vista técnico e pormenorizou a criação do Campeonato Nacional feminino de Juniores: "Sentimos necessidade de ter uma oferta desportiva no país que respondesse às necessidades da atleta. As balizas serão de futebol de sete mas o jogo vai-se processar de área a área como em futebol onze. Qualquer equipa que queira participar vai poder fazê-lo. A ideia é começar a preparar o crescimento das atletas num espaço muito específico. Queremos que elas estejam constantemente a competir segundo o nível que demonstram."
Liderar no feminino
A Treinadora Nacional Susana Cova falou depois sobre aspetos relacionados com a liderança das seleções femininas e ainda sobre algumas das questões que assolam os técnicos quando pensam na melhor forma de fazer escolhas e concretizar objetivos. O respeito pela personalidade de cada líder e das pessoas que o(a) acompanham na comitiva é um dos princípios fundamentais em todos os estágios das Equipas das Quinas, que tentam ao máximo passar às jogadoras os valores associados ao país e à Seleção, como a bandeira e o hino.
Ainda no contexto da liderança das seleções nacionais femininas, o Treinador Nacional José Paisana debruçou-se sobre os aspetos intrínsecos à relação entre os diferentes departamentos que acompanham as Equipas das Quinas e frisou a necessidade de se delimitarem muito bem as tarefas de cada membro da comitiva e salientou a importância das hierarquias na gestão de conflitos de grupo. A definição de objetivos "realistas e mensuráveis" foi também enfatizada por José Paisana, que recordou algumas das experiências no Campeonato da Europa feminino sub-19, em 2012, para destacar a importância do fomento da união do grupo de trabalho pelas capitãs de equipa e disse que as lideranças são sempre marcadamente emocionais.
Marketing e imagem
Enquanto modalidade em franco crescimento no nosso país e em todo o mundo, o futebol feminino já "obriga" a um trabalho cuidado em relação a ao marketing e imagem associados à modalidade.
Carlos Lucas, Diretor de Competições e Eventos da Federação Portuguesa de Futebol, foi um dos oradores convidados a falar sobre o tema e disse que os patrocinadores procuram fazer-se sentir associados a um clube ou competição. O retorno de visibilidade – a visibilidade no sítio certo, procurar ser exclusivo e o acesso a experiências foram também apontados como aspetos que não podiam deixar de ser alvo de atenção. Carlos Lucas referiu também a necessidade de disponibilizar acesso às atletas e ao jogo, sendo que as permutas são receitas: "O verdadeiro desafio começa depois do patrocínio estar fechado, com o renovar da parceria. É errado estarmos à procura de angariar novos fãs sem estratégia e tentar incluirmos todos. Escolha correta do target é fundamental (6 aos 12). Estamos a competir pelos tempos livres das pessoas."
Doris Fitschen, Diretora de marketing da Federação Alemã, reconheceu o potencial do futebol feminino na Alemanha, sendo que neste momento o principal objetivo da DFB é aumentar esse potencial: "Todos os fins-de-semana temos 80 mil jogos. O desafio é conseguir que a pessoas vejam o futebol feminino, que se entusiasmem."
A responsável máxima pelo marketing da federação de futebol germânica elencou ainda os trunfos do futebol feminino alemão: "Os trunfos? A qualidade da seleção e das jogadoras, a visibilidade através da cobertura mediática e das transmissões televisivas ("Queremos aumentar os seguidores nas redes sociais."), o reconhecimento ("Criámos uma imagem coerente da marca."), e as protagonistas ("Se queremos aparecer nos media, ter adeptos, temos de ter algo distintivo, desde logo por ser feminino, não vivem num mundo à parte... trabalham, estão muito próximas dos adeptos e são modelos.").
Fonte: FpF.PT
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