José Saúde
“Lá no cimo do montado/No ponto mais
elevado/Havia um enorme sobreiro/ /De todos era a cobiça/A dar bolota e
cortiça/No montado era o primeiro”, cantava o saudoso João Braza,
compatriota alentejano, de Évora, no célebre “Fado do Sobreiro”, um tema
que me faz reviver aquele imponente chaparro localizado junto à linha
lateral do campo de futebol José Agostinho Matos, na Cabeça Gorda.
Altaneiro e com uma excelência exorbitante, assumiu-se inexoravelmente
como um ex-libris de um povoado que fez dele uma insofismável bandeira.
Os seus tons, outrora verdejantes, deram lugar a um pálido e mortiço
castanho. Sofre da praga que tem vitimizado parte de um montado onde a
história do azinhal cruza gerações. Na sua certidão de existência reside
o facto de ter sido símbolo de gentes que não perdiam pitada dos jogos
do Clube Recreativo e Desportivo da Cabeça Gorda. Altivo e pujante,
conheceu tardes de glória desportiva, sendo um ilustre anfitrião de
desafios em que a equipa atuou no campeonato da antiga FNAT, agora
Inatel, e mais tarde na primorosa ascensão no prodígio futebolístico.
Hoje, a sua desértica sombra resvalou para o campo da saudade. Qual
oásis onde se calejavam dois dedos de conversa! Seco, e despojado de uma
estrutura que dantes parecia sólida, a azinheira que outrora acolheu
sob a sua ramagem o povo da bola, resvalou para o museu da saudade.
Recordo os tempos em que o Zé Carlos Dias tratava diálogos fantásticos
com o seu apaziguado chaparro. Numa narrativa simples e cordial,
planeava pretensões que recaíam no fortalecimento do seu “Ferrobico”,
visto que muitos dos seus sonhos se converteriam em prósperas
realidades. Lembro as noites de verão no campo da bola da aldeia, onde a
população se juntava para apreciar diversos acontecimentos e se
refrescava por debaixo do seu ancestral ex-libris. A desgastada
azinheira é agora sinónimo de agonia. Morreu de pé como todas as
árvores. Resta esperar que, embora defunto, ainda assista ao exequível
regresso do “Ferrobico” ao escalão principal do futebol distrital
Fonte: http://da.ambaal.pt/
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