“Alentejo, Alentejo, terra sagrada do pão”. Um palmo bem medido do meu território de sonho. Serras verdejantes, casario caiado de branco, searas ondulantes que deslizam pela planície até ao mar, onde a espuma beija o areal, num teimoso vai vem que refresca a alma e ioda a memória.
Texto e foto Firmino Paixão
Um mapa feito à dimensão do meu imaginário. O dedo menor tocando nas serranias de nordeste, o polegar acariciando os rochedos do sudoeste. Estico bem, para que as linhas da palma da mão sintam pulsar o coração desta terra de gente nobre e heroica, que sofre e canta, que volta a sofrer e torna a cantar, porque “povo que canta não morrerá” (Michel Giacometi).
Quase um milhar de quilómetros à frente, e atrás, dos bravos do pelotão. Moços de uma só geração. Moços de muitas origens e tão diferentes falas, que se entendem através dessa linguagem universal que é o desporto, numa das suas versões mais belas e puras, o ciclismo.
Não era verão, tão pouco primavera, o sol espreitou quente e atrevido entre o arvoredo da serra de São Mamede, ali onde o meu dedo mínimo sinalizou o início desta grande volta, que mais não é do que uma janela sobre o Alentejo. Na base do monumento que evoca os mortos da grande guerra, filhos do distrito de Portalegre, um a um, os heróis, não dessa guerra, mas de luta e sofrimento contra os quase infindáveis quilómetros, foram assinando o ponto. Um ritual que em tempo de Carnaval se tingiu com as máscaras e fantasias de crianças e adultos, protegidos pelo plátano centenário (1838) da avenida da Liberdade.
Quatro horas depois e alguns, poucos, muito menos quilómetros dos que acusavam as bicicletas, o pelotão serpenteou pelo centro histórico de castelo de Vide, terra natal de Salgueiro Maia, outro herói, mas da Revolução dos Cravos. Uma terra onde a autarquia homenageou o coletivo Israel Cycling Academy, não fossem ali visíveis tantos testemunhos de culto da religião judaica.
Os bravos do pelotão visitaram, depois, a terra natal de outro bravo, o artista João Moura, sim, porque lidar toiros é uma arte e ele, que é filho de Monforte, empresta o nome ao tauródromo local. Uma terra onde a tauromaquia é património cultural e imaterial de interesse municipal, bem povoada de coudelarias, ganadarias e de toureiros que são seus verdadeiros embaixadores. Rapidamente as bicicletas, e a corte que as acompanha, viraram a sul, por territórios do mármore, chegando a Vila Viçosa onde nasceram figuras como a poetisa Florbela Espanca (“eu quero amar, amar perdidamente!”) e o matemático Bento de Jesus Caraça. Foram muito fugazes as passagens pelo Redondo e Reguengos, terras de boas castas e de melhores aromas. “Alentejo, Alentejo, daqui para a minha terra, tudo é caminho e chão …”, terras de barro que são o pão dos oleiros de São Pedro do Corval, porque “da terra à peça, se fazem os caminhos da história”. Não ouvimos o passarinho, à porta da sua amada, tão pouco degustámos as açordas que em breve vão estar em congresso, provando, em terra de gente gorda, que não é bem como dizem as cantigas que “às sopas chamamos açordas e às açordas chamamos migas”. Coisas de fadistas! A música aqui era outra, não em tom de fado, mas em tom de amarelo, porque Carlos Barbero começou em Portel a celebração da vitória. Ao terceiro dia os corredores voltaram a terras do grande lago, que já tinham visto antes, desde o alto de Monsaraz, vila medieval altaneira e garbosa de onde se testemunha esta nova face que está tomando a economia da região. O pelotão desceu a Margem Esquerda do Guadiana, até à “Terra forte”, cidade que deu o maior impulso à consagração pela Unesco, em 27 de novembro de 2014, do cante alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
A cidade Pax Julia esteve apenas na rota desta tirada de mais de duas centenas de quilómetros e milhares de pedaladas até à Vila Museu. Odemira foi o ponto onde assentámos o polegar, a extremidade sudoeste do palmo que traçámos neste território que amamos, e aqui começa um Alentejo “singular”. Começou também mais uma tirada para os heróis da “Alentejana” recortando o litoral, onde a brisa atlântica casa bem com a poesia romântica. E olha Rui, não vimos “o vizir de Odemira” mas que “havia um pessegueiro na ilha…”, isso havia. Mas os corredores não viram porque o tempo era de perseguição aos escapados, e a silhueta dos navios, à vez para entrada no porto, já recortavam o mar de Sines e Alcácer do Sal ainda estava a um bom par de quilómetros, para lá do Sado. Os Boinas, coral ferreirense, voltaram a cantar o Alentejo e encantar a caravana, degustando torresmos e os néctares da Capela, outras das coisas boas que devemos à terra, mas “a terra paga-me em vida e eu pago à terra em morrendo”. Vamos lá saindo, que se faz tarde. E fomos de abalada para Évora, porque foi lá que terminou a campanha, subindo a meia ladeira, “lembrando as moças de Cuba e o vinho de Vidigueira”. “Alentejo, Alentejo, terra sagrada do pão…”.
Fonte: http://da.ambaal.pt/
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