sexta-feira, 10 de março de 2017

Uma janela sobre o Alentejo


“Alentejo, Alentejo, terra sagrada do pão”. Um palmo bem medido do meu território de sonho. Serras verdejantes, casario caiado de branco, searas ondulantes que deslizam pela planície até ao mar, onde a espuma beija o areal, num teimoso vai vem que refresca a alma e ioda a memória.

Texto e foto Firmino Paixão

Um mapa feito à dimensão do meu imaginário. O dedo menor tocando nas serranias de nordeste, o polegar acariciando os rochedos do sudoeste. Estico bem, para que as linhas da palma da mão sintam pulsar o coração desta terra de gente nobre e heroica, que sofre e canta, que volta a sofrer e torna a cantar, porque “povo que canta não morrerá” (Michel Giacometi).
Quase um milhar de quilómetros à frente, e atrás, dos bravos do pelotão. Moços de uma só geração. Moços de muitas origens e tão diferentes falas, que se entendem através dessa linguagem universal que é o desporto, numa das suas versões mais belas e puras, o ciclismo.
Não era verão, tão pouco primavera, o sol espreitou quente e atrevido entre o arvoredo da serra de São Mamede, ali onde o meu dedo mínimo sinalizou o início desta grande volta, que mais não é do que uma janela sobre o Alentejo. Na base do monumento que evoca os mortos da grande guerra, filhos do distrito de Portalegre, um a um, os heróis, não dessa guerra, mas de luta e sofrimento contra os quase infindáveis quilómetros, foram assinando o ponto. Um ritual que em tempo de Carnaval se tingiu com as máscaras e fantasias de crianças e adultos, protegidos pelo plátano centenário (1838) da avenida da Liberdade.
Quatro horas depois e alguns, poucos, muito menos quilómetros dos que acusavam as bicicletas, o pelotão serpenteou pelo centro histórico de castelo de Vide, terra natal de Salgueiro Maia, outro herói, mas da Revolução dos Cravos. Uma terra onde a autarquia homenageou o coletivo Israel Cycling Academy, não fossem ali visíveis tantos testemunhos de culto da religião judaica.
Os bravos do pelotão visitaram, depois, a terra natal de outro bravo, o artista João Moura, sim, porque lidar toiros é uma arte e ele, que é filho de Monforte, empresta o nome ao tauródromo local. Uma terra onde a tauromaquia é património cultural e imaterial de interesse municipal, bem povoada de coudelarias, ganadarias e de toureiros que são seus verdadeiros embaixadores. Rapidamente as bicicletas, e a corte que as acompanha, viraram a sul, por territórios do mármore, chegando a Vila Viçosa onde nasceram figuras como a poetisa Florbela Espanca (“eu quero amar, amar perdidamente!”) e o matemático Bento de Jesus Caraça. Foram muito fugazes as passagens pelo Redondo e Reguengos, terras de boas castas e de melhores aromas. “Alentejo, Alentejo, daqui para a minha terra, tudo é caminho e chão …”, terras de barro que são o pão dos oleiros de São Pedro do Corval, porque “da terra à peça, se fazem os caminhos da história”. Não ouvimos o passarinho, à porta da sua amada, tão pouco degustámos as açordas que em breve vão estar em congresso, provando, em terra de gente gorda, que não é bem como dizem as cantigas que “às sopas chamamos açordas e às açordas chamamos migas”. Coisas de fadistas! A música aqui era outra, não em tom de fado, mas em tom de amarelo, porque Carlos Barbero começou em Portel a celebração da vitória. Ao terceiro dia os corredores voltaram a terras do grande lago, que já tinham visto antes, desde o alto de Monsaraz, vila medieval altaneira e garbosa de onde se testemunha esta nova face que está tomando a economia da região. O pelotão desceu a Margem Esquerda do Guadiana, até à “Terra forte”, cidade que deu o maior impulso à consagração pela Unesco, em 27 de novembro de 2014, do cante alentejano como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
A cidade Pax Julia esteve apenas na rota desta tirada de mais de duas centenas de quilómetros e milhares de pedaladas até à Vila Museu. Odemira foi o ponto onde assentámos o polegar, a extremidade sudoeste do palmo que traçámos neste território que amamos, e aqui começa um Alentejo “singular”. Começou também mais uma tirada para os heróis da “Alentejana” recortando o litoral, onde a brisa atlântica casa bem com a poesia romântica. E olha Rui, não vimos “o vizir de Odemira” mas que “havia um pessegueiro na ilha…”, isso havia. Mas os corredores não viram porque o tempo era de perseguição aos escapados, e a silhueta dos navios, à vez para entrada no porto, já recortavam o mar de Sines e Alcácer do Sal ainda estava a um bom par de quilómetros, para lá do Sado. Os Boinas, coral ferreirense, voltaram a cantar o Alentejo e encantar a caravana, degustando torresmos e os néctares da Capela, outras das coisas boas que devemos à terra, mas “a terra paga-me em vida e eu pago à terra em morrendo”. Vamos lá saindo, que se faz tarde. E fomos de abalada para Évora, porque foi lá que terminou a campanha, subindo a meia ladeira, “lembrando as moças de Cuba e o vinho de Vidigueira”. “Alentejo, Alentejo, terra sagrada do pão…”.

Fonte: http://da.ambaal.pt/

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