segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Da evolução do futebol feminino (ou falta dela)

Nuno Cristovão foi selecionador nacional, treinador do 1.º Dezembro e treinador do Clube Futebol Benfica
Nuno Cristovão foi selecionador nacional, treinador do 1.º Dezembro e treinador do Clube Futebol Benfica
Perguntaram-me “por que raio” é que não tenho atualizado o blogue recentemente. Francamente, a verdade é que não me apetece. O futebol feminino em Portugal está cada vez mais triste, mais pobre, mais mesquinho, mais desagradável. Não falo do que se passa no relvado, não, mas fora. As pessoas que sabem do nosso futebol feminino, muitas delas, ou estão retiradas ou afastadas – como é o caso do homem que ilustra este texto -, e, pelo contrário, as que não sabem dele, infelizmente, lideram, com pompa e cirscunstância, e lideram apenas e só pela força e pela lei da rolha – mas sempre bem vestidas e penteadas, convenhamos.
Não há UMA medida da Federação Portuguesa de Futebol - que tem uma vice-presidente, Mónica Jorge, apenas e só dedicada ao futebol feminino, recorde-se, a ganhar 90 mil euros por ano - que apoie os clubes que apostam no feminino de forma sustentada e que, recordemos, são o que alimentam as tão amadas seleções; não há qualquer consideração pelos clubes e pela condição amadora das jogadoras na realização dos calendários das diversas competições, havendo apenas em vista o interesse das seleções; não há o mínimo de respeito pelas jogadoras, sejam elas internacionais ou não, como sucede com a Sónia Matias e muitas outras em situação semelhante, que são pura e simplesmente descartadas porque há alguém que não gosta delas; há um “plano estratégico de desenvolvimento” (cuja primeira versão podem ler aqui) que só dá vontade de rir, não só porque não recolheu sequer dados suficientes, como porque tem nele pessoas que não fazem a mais pálida ideia do que é a realidade nacional e não há sequer quem as ajude da FPF - ah, e o plano já deveria ter ficado concluído em abril…! Se calhar enganaram-se e era abril de 2014 ou 2015?; não há nenhum tipo de evolução sustentada no futebol feminino, ao contrário do que muito se quer fazer crer, e as tristes goleadas perante a Bélgica e a Holanda (por 4-1 e 7-0, respetivamente) só vieram comprovar o que quem quiser ver, vê – e atenção, isto nada tem a ver com as jogadoras.
Em 1998 e 2000, Portugal ganhava à Bélgica e ganhava à Holanda. Estamos a falar apenas de dois adversários diretos na qualificação cuja evolução e crescimento é revelador do empenho e determinação das respetivas federações de aumentar a qualidade das suas seleções femininas, através do trabalho sustentado nos clubes (já ninguém se lembra do trabalho da Vera Pauw? Eu lembro-me muito bem. Pena que aqui ninguém aprenda com ela). O mesmo se passa em países como a Finlândia, Islândia, Escóciae mesmo País de Gales. Qualquer um desses países tem menos população que Portugal mas qualquer um tem mais jogadoras femininas de futebol (Finlândia 26 423, Islândia 6 571, Escócia 2 600, País Gales 2509) contra as 1683 atletas portuguesas (dados retirados do site da UEFA). Aliás, para perceber bem a falta de evolução portuguesa em relação às restantes, basta procurar a resposta a uma questão: qual foi a última vez que Portugal ganhou, em jogos oficiais, a uma seleção de ranking superior? Resposta: 10 de maio de 2003, perante a Ucrânia, por 1-0 (curiosamente com o selecionador de então a ser o homem da imagem que ilustra este texto). Portanto, há mais de 10 – dez – anos. Depois disso, o melhor que alcançou foi um empate com a mesma selecção, em setembro de 2008. Sugiro, portanto, uma viagem no tempo através do site da FPF, onde estão facilmente acessíveis todos os jogos realizados pela seleção feminina até hoje, para terem uma ideia mais completa do historial da ‘evolução’.
Há alguns anos, a justificação usual para os resultados negativos estava centrada nas diferenças físicas e capacidades atléticas. Parece que regressou agora após a jornada dupla com a Holanda e Bélgica, não se sabe bem por alma de quem. Quiçá António Violante possa explicar. Alguém que aterrou na seleção feminina vindo não se sabe muito bem de onde, perdoem a expressão, com o devido respeito. O facto de em tempos ter assumido interinamente a seleção feminina (previamente à entrada de Graça Simões nos anos 90) não faz dele a pessoa mais indicada para o futebol feminino atual, com as suas inúmeras especificidades. Tal como não fazia de José Augusto, em tempos tristes que não vale a pena recordar muito, em que a seleção esteve completamente à deriva.
A mais recente confusão com os exames médicos “especiais” para as jovens jogadoras é apenas mais uma das muitas bizarrias do futebol feminino no nosso país, que desencanta qualquer um. Recentemente uma jogadora de 15 anos dizia-me que já está “farta” do futebol feminino, porque são só problemas com inscrições e porcarias para aqui e porcarias para ali. Portugal, a exemplo de outros países, permite equipas mistas até ao escalão de iniciados. Para as miúdas é fantástico treinarem e jogarem contra atletas mais possantes e fisicamente mais dotados, ou seja, tudo mais próximo da realidade que encontram nos jogos internacionais. Mas depois… depois há um interregno na competição. Ou saltam de iniciados para seniores – o que já não é legalmente permitido, ainda que haja umas excepções à regra, consultar FPF via secretário geral – ou então ficam a treinar sem competição digna de nome. Ou então a que há é uma regressão. Até aos 14 anos jogam futebol de 11, nos iniciados, e depois se não sobem ao escalão sénior terão que jogar os campeonatos distritais de… futebol 7. Quando os há, já que em Lisboa, por exemplo, o campeonato teve uma jornada e depois foi interrompido sem previsões de regresso.
seleção Sub-17 (como a seu tempo a de Sub-19 fez, com grande mérito) alcançou um resultado brilhante com o apuramento para a fase final doEuopeu da categoria, em Inglaterra. Tudo que veio, ainda que não muito positivo em termos de resultados, terá será sempre de ser considerado um orgulho e uma conquista, mas convém não esquecer que tal só foi possível devido ao facto de as atletas estarem a competir a nível sénior e terem confrontos superiores a nível nacional, que exigem muito mais delas. Se isso lhes ficará vedado por imposição legal então tudo voltará à estaca zero.
Posto isto, só leva com areia nos olhos quem quer. Já sei que nada desta conversa me vai trazer amigos e elogios, bem pelo contrário, portanto podem pegar nisto tudo e espetar outra vez lá no retroprojector no estágio, juntamente com o Twitter, e dizer que querem matar “a família” e mais não sei o quê. Fico sempre contente por ser útil às paranóias alheias, desde que o futebol feminino em Portugal comece a evoluir de forma condigna.
Escrito por Mariana Cabral
In aminhabola.blogspot.pt
Fonte:  http://futebolfemininoportugal.com

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