sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Zezé

José Saúde

Sob um firmamento onde proliferam cintilantes celebridades, eis-me a vasculhar o vasto espólio desportivo que honradamente amontoo no meu arquivo e logo me saltou à estampa peregrinar pela rota de antigos craques do futebol bejense. Neste contexto, a minha perspicaz investigação recaiu sobre a essência de guarda-redes, sobretudo num deles que deixou eternas lembranças: o Zezé. De nome completo José Eduardo Rosa, um cidadão que nasceu a 11 de novembro de 1929, dia de São Martinho, em Beja, foi um notável guardião que bebeu excelentes ensinamentos ministrados por Manuel Trincalhetas, um dos colossais jogadores do Luso. O “tio” Manel foi indubitavelmente um distinto goleiro que deixou escola na arte de bem defender os remates enviusados dos temíveis avançados. Sei, porque tenho sido um insistente investigador na matéria desportiva, ainda que nesses tempos não fizesse parte deste universo terrestre, que nos idos de 1940 resplandeceram, em Beja, espantosos guarda-redes que veementemente se inspiraram no estilo daquele virtuoso atleta que nos desafios não abdicava de um boné e das míticas joelheiras. O Zezé surgiu no Pax Júlia, agremiação que se dedicava exclusivamente à formação. Após a fusão entre o Luso, União e Pax Júlia, 8 de setembro de 1947, uma aliança que deu origem ao Desportivo, a agilidade de Zezé na baliza proporcionou-lhe a chamada para a novel agremiação. A estreia deu-se frente ao Sporting da Covilhã num jogo para a Taça de Portugal. Depois de grandes exibições que encheram o olho ao pessoal da bola especializado, o Zezé teve um convite do Benfica, viajando então para a capital do império. Numa fase de conhecimento aos cantos da casa, não obstante o seu estatuto de jogador à experiência, cruzou-se na sede do emblema da Luz, lá para as bandas da praça dos Restauradores, em Lisboa, com um antigo atleta encarnado de nome Alcobia que, à época, treinava o Elvas, grémio que militava na primeira divisão nacional, e conversa puxa conversa, logo surgiu o convite para rumar à cidade transfronteiriça. Alcobia tratou da promissora aquisição e lá seguiu a jovem estrela bejense para as hostes de “O Elvas Clube Alentejano de Desportos”. Após o regresso a Beja, Zezé voltou ao Desportivo. No livro Glórias do Passado, volume I, está inserida uma breve história que lhe ficou na memória: “Uma vez no Montijo estávamos a ganhar por 3-1 e precisávamos vencer o jogo… o adversário estava a carregar sobre a nossa defesa, entretanto a bola veio parar-me às mãos, de repente mandei-a para o Marcelino, ele fintou os defesas, driblou o Redol, guarda-redes, e entrou com a bola pela baliza e fez o quarto golo”. O treinador era o Telechea, no entanto foi Feliciano o técnico que lhe deixou saudades. Hoje, o Zezé, à beira dos 88 anos, reside no Centro Paroquial e Social do Salvador de Beja e já lhe foi amputada uma perna.  

Fonte: http://da.ambaal.pt/

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