sexta-feira, 24 de novembro de 2017

“Meia laranja”

José Saúde

Viajando pelos trilhos de aromatizadas memórias damos por nós a revermos a desassossegada mocidade onde lugares comuns nos enchiam de extravagantes prazeres. As Portas Mértola, em Beja, assumiam-se como um dos espaços lúdicos para a rapaziada curtir diferentes gozos que a verde idade impunha a um jovem que sonhava não só com a lei da vida, assim como a afinidade de laivos que o cosmos desportivo propunha. Peregrinando pelos anos já distantes, fixemo-nos num dos ex-libris bejenses chamado a “meia laranja”. Na “meia laranja”, cravada entre a Ginjinha, um estabelecimento bíblico cujo proprietário era o nosso saudoso e prezado amigo Secundinho, um exímio mestre nos condimentos das famosas carochas, o lendário café Luiz da Rocha, por onde deambulavam moças airosas, e a Papelaria Correia, dissecavam-se os espíritos clubísticos, ou se mergulhava em inigualáveis tertúlias que cada um dos comparsas partilhava. No mês de agosto, época de canícula, recordo efusivamente as horas passadas naquela nostálgica tribuna onde as novidades surgiam em catadupa. O dia de São Lourenço, 10, data da tourada inserida no cartaz da feira anual, era uma oportunidade para os cavaleiros de elite vistoriarem o lugar e mostrarem-se a um público que vivia, com êxtase, o fidalgo momento. Mas a “meia laranja” era, simultaneamente, a montra para os novos craques do Desportivo de Beja se apresentarem à cidade. Lembro a azáfama quotidiana por uma ida ao local de “culto” para mirar os deuses da bola que vaidosamente por ali passeavam os seus estilos corporais. Num exercício feito a essas notáveis recordações, relembro que pela meia laranja desfilavam personagens civis e desportivas. Falava-se de tudo. Cruzavam-se ideias, debatiam-se ideais e a diversidade de temas tratados eram ajustados a supostas querelas. Dialogava-se sobre a questão das aquisições de jogadores postas a circular pelo emblemático Desportivo, das transferências conhecidas e da ida de fulano tal para um dos emblemas sonantes do futebol lusitano. Tudo se dispersava a contento dos defensores da causa. Na “meia laranja” exercitavam-se esplêndidos ápices de uma juvenilidade que idealizava um destino próspero. À tona da mente evoco, ainda, as tardes infindáveis em que a rapaziada se debruçava sobre a cumplicidade com o desporto automóvel. Os carros dos ralis, eventos estrondosos da época, faziam da “meia laranja” uma excelente passarela para os pilotos mostrarem a grandiosidade das suas portentosas viaturas. As “bombas”, ocasionalmente transformadas, alegravam o olho a uma moçada que se deslumbrava com as imagens infernais que as máquinas suscitavam. Sintetizando: como eram elevados esses tempos desportivos vividos na “meia laranja”!

Fonte: http://da.ambaal.pt/

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