“A
história de que de mais se fala sobre Messejana é a da praia. Esta vila
foi sede de concelho e, nos idos tempos de 1910, alguns notáveis locais
foram a Lisboa falar com o ministro do Fomento, o médico e escritor
aljustrelense Manuel de Brito Camacho, sobre as carências do concelho,
mas as necessidades apresentadas eram tantas que o ministro lhes
perguntou se não tinham também falta de uma praia e daí nasceu a
história da praia de Messejana”.
Texto Firmino Paixão
Uma narração alegórica, aqui reposta pelo
António Parreira que, passados dois séculos, mantém a mesma pertinência
e atualidade. Se já nesse tempo, quem se sentava na cadeira do poder
achava que tudo o que viesse para o interior era em demasia, hoje a
história repete-se amiudadamente. Mas os messejanenses da época não se
vergaram à douta ironia ministerial e replicaram: “Arranje lá vossa
excelência a água, que nós arranjaremos a areia”. É com essa mesma
determinação, com esse caráter e sentimento de inconformismo que o
antigo mineiro António Parreira, atleta do Núcleo de Atletismo e Recreio
de Messejana, se mantém ativo e predisposto a dar o exemplo de práticas
de vida saudável.
Nasceu, há 64 anos, nessa bela vila de
Messejana, terra associada a outras parábolas, nomeadamente de caráter
religioso e taurino, mormente à conhecida “afición” de um pároco local
que, hoje, tem o seu nome perpetuado da praça de touros da terra. Por
esta altura, tivesse já a pandemia nos deixado em paz e sossego,
viviam-se ali as grandes Festas de Santa Maria, em honra de Nossa
Senhora da Assunção. Pois bem, António Parreira, apesar de ter nascido
naquela terra a que D. Manuel I concedeu o foral de concelho, foi
registado em Aljustrel e ali se radicou desde os seus tenros 14 anos.
“A minha infância foi normal, igual a
tantos miúdos dessa época, com boas vivências. Na escola apenas fiz a
sexta classe da altura. Nessa época sonhava em ser mecânico, mas nunca
concretizei esse sonho”, conta o atleta, revelando ter começado muito
cedo a trabalhar no campo. “Depois, aos 12 anos, fui trabalhar para a
Forma, uma antiga fábrica de mobiliário em azinho, situada em Messejana.
Com essa idade já tinha o cartão da Caixa de Previdência”.
O sonho da mecânica desvaneceu-se mas
teve uma experiência aproximada: “Trabalhei em oficinas onde se
reparavam as alfaias agrícolas, mas isso aconteceu até ir para a tropa,
depois fui para a mina”. Nos finais da década de 70, já após a Revolução
de Abril, cumpriu o serviço militar no, então, Regimento de Infantaria
nº 3, na cidade de Beja.
Vivendo em Aljustrel, foi inevitável que
viesse a trabalhar nas minas. “Depois de vir da tropa, fui para a mina,
trabalhei 10 anos numa forja e, depois, fui para a lavaria industrial,
que pertencia às minas, onde se extraía do minério bruto o cobre, o
chumbo e o zinco”. Entretanto, ainda jovem, começou a construir os
alicerces familiares. É essa a ordem natural da vida. “Casei aos 20
anos, tenho dois filhos, um deles já com 43 anos e o mais novo com 36
anos. São ambos entusiastas de desporto. O mais velho adorava atletismo,
o mais novo gostava de natação”.
António Parreira, quando jovem, nunca
praticou outros desportos que não fossem as jogatanas de rua com a
rapaziada da sua idade, e revela que o atletismo surgiu na sua minha
vida quando já tinha 27 anos e por influência do filho mais velho. “Ele
gostava imenso da modalidade, incentivou-me e andou comigo até ir para a
Força Aérea. Eu fui ficando e ainda por cá ando”.
Aos 64 anos, já aposentado desde os 52, o
que faz o António Parreira correr, que não seja apenas manter a sua
visível e invejável boa condição física? “O que me faz correr é o enorme
gosto por esta atividade. A corrida é uma prática muito boa para a
saúde. Depois, também, as amizades e a boa camaradagem que se vive nas
provas. Tudo isto acabou por se transformar numa paixão que é difícil de
abandonar”.
António Parreira recorda que ter começado
a correr no Desportivo da Juventude Aljustrelense (DJA). Quando este
clube terminou, foi para o Grupo Desportivo de Messejana, até que,
passado algum tempo, nasceu o Núcleo de Atletismo e Recreio de Messejana
(NARM). “Por cá me mantenho desde a fundação do clube”. Com esta
camisola tem conquistado alguns títulos que lhe alimentam esta vontade
de correr. “Sim, ganhei muitas provas, fui campeão distrital algumas
vezes e fiz também recordes do distrito nas distâncias de 1 500, 3 000 e
5 000 metros, porque também faço provas em pista, apesar de gostar mais
de correr em estrada”.
Na sua avaliação enquanto desportista,
considera-se “um atleta normal”. E explica: “Gosto de ganhar, mas também
gosto de ajudar os colegas a continuar”.
Hoje e apesar de a pandemia manter em
suspenso a realização das provas federadas, o desportista do NARM
continua a treinar com o mesmo entusiasmo e a mesma paixão porque, com
os tempos, a vida familiar foi-se adaptando aos seus hábitos. “No
princípio, a ‘dona da casa’ não gostava, pois atrapalhava a lida
doméstica, principalmente ao jantar, porque vinha tarde dos treinos e só
podia arrumar a cozinha mais tarde… mas depois adaptou-se”, confessa,
satisfeito com este seu percurso: “Sinto-me feliz… apesar de haver
alguns percalços, como há em tudo na vida, estou contente, as alegrias
têm valido a pena, as amizades ficam para sempre e consegui os meus
objetivos. Agora só espero ser feliz o resto do tempo que me resta”.
Fonte: https://diariodoalentejo.p