Com o pragmatismo de quem se habituou a conhecer bem as falácias do futebol regional, Carlos Jorge Guerreiro já deixou de sonhar com altos voos, assumindo o futebol como uma atividade de mero lazer.
Texto e foto Firmino Paixão
O treinador diz que “muitas vezes temos que abandonar a ilusão que sentimos no início, porque a nossa vida é para além do futebol, que é um mundo onde o que hoje é verdade, amanhã é mentira”. Carlos Jorge tem 16 anos de carreira e assume: “Tenho a felicidade de já ter treinado equipas do Inatel, com muito orgulho, da 2.ª e da 1.ª Divisão Distrital e da 3.ª divisão nacional”. Reconduzir o Despertar para a 1.ª Divisão é a missão que lhe está confiada, mais por vontade do grupo do que por proposta de objetivos.
O triunfo sobre o Desportivo deixou o Despertar mais perto da segunda fase, provavelmente a primeira meta da equipa?
Era um jogo onde tínhamos dois resultados que nos deixariam em excelente posição. Quer a vitória, quer o empate, nos deixariam a depender apenas de nós e com alguma folga para qualquer erro. A derrota acalentaria um bocadinho de esperança ao Desportivo, mas nós entrámos bem no jogo, fizemos o primeiro golo aos dois minutos, o segundo aos 15 e acabámos com o jogo.
Os jogos entre o Despertar e o Desportivo já não têm a carga emotiva de outrora?
Isso é um pouco a imagem do desporto na nossa região. Vamos a qualquer dos campos em Beja e vê-se sempre pouca gente. Dizia-se que era por não existirem jogadores da terra, agora todas as equipas são compostas por jogadores, maioritariamente, da nossa cidade, mas existe muita oferta e as pessoas dispersam-se, o afastamento é tal que já nem os dérbis são mobilizadores.
A primeira meta está atingida e a segunda será a subida à 1ª divisão?
Este modelo permitiu às equipas fazerem 21 jogos nesta primeira fase, na segunda teremos mais seis jogos com maior intensidade, e isso é importante numa perspetiva da evolução pretendida para esta equipa, por isso, tudo pode acontecer. Se terminarmos nos lugares de acesso à subida será interessante, porque a 1.ª divisão é o escalão propício para os jovens que saem da nossa formação e transitam para seniores. A promoção não é nada que nos tenha sido exigido, mas uma ideia que o grupo, internamente, tem vindo a amadurecer.
O Saboia, Amarelejense, Renascente e Despertar estarão na segunda fase…
Penso que sim, embora o futebol seja muito dado a surpresas, mas nesta altura parece estar assim definido, e são quatro boas equipas, já tive oportunidade de ver jogar o Saboia e o Renascente, penso que será uma segunda fase renhida, bem disputada e com aquela intensidade que os jogadores gostam e que nos levam mais ao limite, que é a cultura que nós temos.
Não se avalia a competitividade de um campeonato com um quadro de equipas tão reduzido?
Passámos da não existência de campeonato para um campeonato com 15 equipas, se estamos a falar de uma 2.ª divisão não podemos ter um nível tão elevado como temos na 1.ª divisão, mas a qualidade é aceitável. Foi interessante a entrada das equipas bês, com uma filosofia muito parecida com aquela que o Despertar tem, fomentando a promoção dos jovens e não os deixando parados.
E com alguns jovens de muita qualidade…
Principalmente a equipa do Moura, que tem excelentes jogadores que certamente aparecerão na primeira equipa num campeonato nacional. O Vasco da Gama também, o Amarelejense e, naturalmente, o Despertar. Ao Desportivo queria deixar uma palavra porque, habitualmente, só veem se as equipas ganham ou perdem, e nem sabem quão difícil foi ao Despertar e ao Desportivo construírem as equipas. E as condições em que ambas trabalham, num relvado natural que nem sempre está disponível, num sintético com uma iluminação que não vemos dois metros para a frente, o Desportivo tem mérito, fez uma equipa nos últimos dias. São coisas que merecem o nosso apreço.
O plantel do Despertar é o prolongamento do trabalho de formação?
Temos 17 jogadores, entre eles três juniores, entre a Taça e o Campeonato já utilizámos outros três e, além disso, temos jogadores de primeiro ano a evoluir na equipa. Esse é o caminho de um clube de formação, temos que encarar o escalão sénior como mais um escalão onde se integrem aqueles atletas que passam 10 ou 12 anos na nossa casa.
O Despertar é a sua ponte para outra margem ou o clube tem em mente algum projeto mais concreto?
Quando começamos tendemos a ter os sonhos muito altos porque temos muita paixão pelo desporto, mas temos que cair na realidade e fazermos as coisas apenas pelo prazer, porque aquilo que nos sobra deste nosso passatempo é a amizade que criamos com dezenas de atletas com quem trabalhamos por onde passamos, porque no nosso quadro desportivo emergiram apenas os treinadores José Romão e Pedro Caixinha e os jogadores Tiago Targino e os irmãos Aurélio.
Fonte: http://da.ambaal.pt
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