sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O importante é estar feliz”


O treinador António Franco está há cerca de quatro meses na China, na Winning League/Figo Football Academy. Numa curta estada em Beja, para recarregar baterias, o técnico falou desta sua aventura no Oriente.

Texto Firmino Paixão


A cidade chinesa de Changzhou localiza-se na província de Jiang, no leste do país. Tem cerca de 917 mil habitantes e é lá, a cerca de 32 horas de viagem desde o Alentejo, que António Franco, 34 anos, serpense de nascimento, desenvolve a sua atividade como treinador da Academia Luís Figo. Um trabalho exigente, não tanto pela partilha dos conhecimentos e da sua experiência como treinador, mas pela tenacidade necessária para o estímulo da assiduidade aos treinos e dos hábitos de prática desportiva numa modalidade com pouca expressão no “país do sol nascente”.

Como está a correr esse projeto na Academia Luís Figo?
Está a correr bem. A academia tem cerca de ano e meio, mas o nosso percurso nesta academia tem cerca de quatro meses, três deles já a trabalhar diretamente na cidade onde estamos, que é Changzhou. As coisas estão a correr bem, temos cerca de 100 miúdos e vamos continuar esta missão. O trabalho tem sido positivo, estou a gostar da experiência e o retorno que tenho tido das pessoas também tem sido positivo.

Correspondeu às expectativas que levava ou existiu algum momento de desencanto?
Eu já tinha algumas informações sobre o contexto que iria encontrar e estava perfeitamente identificado com o trabalho que iria realizar. É um processo que ainda está muito em embrião, o futebol está a dar os primeiros passos e os miúdos começam a conhecer a modalidade. É preciso muita paciência, sobretudo para tentar alterar as mentalidades, mas não é fácil, porque o conhecimento que eles têm do futebol torna o processo moroso e difícil, mas é exatamente por isso que nós lá estamos.

Sem momentos de desânimo, aqueles em que questionamos o porquê das coisas acontecerem?
Há sempre momentos de desânimo, especialmente quando os objetivos no treino e na organização não são atingidos. Mas, obviamente, temos de compreender o contexto onde estamos, porque isso também faz parte das competências do treinador, adaptar-se a cada contexto e a cada realidade, percebendo o que tem pela frente e desenvolvendo o processo de forma a melhorar esse contexto. Estamos integralmente dedicados à organização da academia, melhorando os pontos que identificamos como menos positivos e numa perspetiva de melhorarmos também o nosso trabalho e, por consequência disso, também melhorar a evolução dos miúdos.

E são muitos os jovens inscritos na academia?
Neste momento a academia de Changzhou tem cerca de uma centena de miúdos, começámos com 10 ou 15 e, nesta altura, com três meses de trabalho, já são quase 100, e claramente com perspetivas de aumentar. São miúdos com idades entre os quatro e os 15 anos. Nós estamos em Changzhou, mas a academia já está instalada em 11 cidades.

E já mostram evolução?
Em termos técnicos e táticos, como o nível de partida dos miúdos é muito baixo, a evolução vê-se diariamente, mas penso que a nossa grande conquista nestes primeiros meses tem sido fundamentalmente a atitude perante o treino. É essa área comportamental que também lhe estamos a transmitir, sobretudo que o treino tem que se realizar independentemente de algumas circunstâncias, às vezes, mais adversas. Por exemplo, o primeiro treino com chuva teve de ser cancelado, mas no segundo já foram oito miúdos e aumentaram progressivamente. Este é um exemplo da perspetiva que eles tinham do treino e da forma como têm evoluído.

Quais as maiores dificuldades do dia-a-dia?
A mentalidade é muito diferente da do Ocidente, não vou avaliar se é correta ou errada, cada país tem a sua cultura, mas temos de estabelecer alguns pontos comuns, quer no treino, quer nos aspetos sociais, e nós estamos bem integrados. Agora da outra parte terão de existir algumas “cedências” para que as coisas caminhem no sentido que todos desejamos.

Já se esbateram as barreiras que inicialmente dificultaram o processo?
A adaptação correu bem, em termos culturais estamos, mais ou menos, identificados, apesar do pouco tempo de que dispusemos, mas deu para perceber a cultura das pessoas. A língua é muito complicada, embora já consigamos comunicar, principalmente no treino, em chinês. No essencial falamos inglês, mas já conseguimos fazer compras.

Quando voltar à Europa está preparado para abraçar um projeto ainda mais ambicioso?
A experiência tem sido enriquecedora, estou a crescer como pessoa e como treinador, acho que estou mais preparado, mas o futuro é muito difícil de prever, as coisas mudam muito depressa. Há alguns meses se me perguntassem se iria trabalhar na China, provavelmente diria que não. Para mim, o importante é estar feliz e estar preparado para novos desafios.

Fonte:  http://da.ambaal.pt/

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